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Às 23h

Livros na Minha Cabeceira

Às 23h

Livros na Minha Cabeceira

Opinião - A Cabana

Sara, 01.07.20

Autor: Wm. Paul Young

Editora: Porto Editora

Ano de Edição: 2009 (1ª)

Título Original: The Shack

Tradução: Fernando Dias Antunes

ISBN: 978-972-0-04178-4

Nº Pág.: 246

 

Sinopse:

"As férias de Mackenzie Allen Philip com a família na floresta do estado de Oregon tornaram-se num pesadelo. Missy, a filha mais nova, foi raptada e, de acordo com as provas encontradas numa cabana abandonada, brutalmente assassinada.

Quatro anos mais tarde, Mack, mergulhado numa depressão da qual nunca recuperou, recebe um bilhete, aparentemente escrito por Deus, convidando-o a voltar à malograda cabana.

Ainda que confuso, Mack decide regressar à montanha e reviver todo aquele pesadelo. O que ele vai encontrar naquela cabana mudará o seu mundo para sempre."

 

Opinião:

Este livro foi-me oferecido quando já era bestseller , com indicação na capa que tinha vendido 7 milhões nos EUA. Ora, eu com livros muito badalados, fico sempre de pé atrás. Na altura, ainda li as primeiras páginas - o prefácio e pouco mais. Não cheguei sequer ao rapto de Missy porque a escrita não me atraiu nada.

Há cerca de um mês, numa conversa de amigas, falaram-me do filme. Eu disse que nem o livro tinha conseguido ler mas insistiram que tinha de ver o filme. Fiquei curiosa, por que razão faziam tanta questão se era uma adaptação de um livro que eu nem sequer tinha gostado. Vi-o na noite desse dia. E deixo-vos aqui o trailer:

O filme conta, mais uma vez, com uma atriz que eu adoro - Octavia Spencer - e aproveito já para dizer que a adaptação do livro é tão, mas tão melhor que o livro! Tanto a transmitir as emoções, como a mensagem fundamental.

Mas, após ver o filme, tive de pegar no livro para descobrir o que mais iria acrescentar.

 

O livro divide-se essencialmente em duas partes: uma primeira, policial, que acrescenta alguns pormenores ao filme mas não deixa de ser muito pequena e pouco profunda, se compararmos com policiais propriamente ditos. Comparativamente, o filme com a ajuda da música, da luz, dos próprios atores, é mais emocionante.

 

No livro, a segunda parte, espiritual, tenta responder a todas as dúvidas que surgem sobre a existência de Deus, quando perdemos alguém de forma atroz. E nisso, o filme consegue fazê-lo de uma forma mais simples.

 

No livro, a segunda parte torna-se demasiado confusa...

 

 

Mesmo concordando com alguns pontos, o texto relembra-me, por vezes, um sermão. A história volta a tornar-se interessante nas últimas vinte páginas. Mas 20 páginas dificilmente salvam um livro com 250... Resumidamente, foi uma leitura confusa e, por vezes, sofrida.

 

Vejam o filme e, desta vez, fujam do livro...

 

Pontuação: 3/10

 

 

O Amor é Fodido

Sara, 13.09.16

 

Autor: Miguel Esteves Cardoso

Editora: Porto Editora

ISBN: 978-972-0-04599-7

N.º Páginas: 184

 

As lágrimas das raparigas refrescam-me. Levantam-me o moral. Às vezes lambo-a dos cantos dos olhos. São pequenos coquetéis sem álcool, inteiramente naturais. Dizer: "Não chores" funciona sempre, porque só mencionar o verbo "chorar" emociona-as e liberta-as, dando-lhes carta-branca para chorar ainda mais. Só intervenho com piadas e palavras de esperança e de amor quando elas vão longe de mais e começam, por exemplo, a pingar do nariz.

 

Opinião:

 

Não sou de modas e, por isso, só agora me debrucei sobre um livro de Miguel Esteves Cardoso. O título desta obra esteve nas bocas do mundo e o escritor foi considerado irreverente. Quando peguei no livro, tinha a certeza ter encontrado um tesouro. Deparei-me com uma primeira página que prometia uma obra inesquecível:

Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria que ainda estivesses viva. Só dois ou três minutos: o suficiente para te matar. Merecias uma morte mais violenta (…)

Mas, capítulo após capítulo, o gosto pela leitura foi diminuindo drasticamente. Tornou-se numa desilusão. O romance foi ficando sem estrutura e parecia ter nas mãos um esboço apenas, como se estivesse a ler um caderno de pensamentos do autor. Além da falta de estrutura, a própria escrita alterna bastante. Existem vários capítulos em que a pontuação é absurda – parece que estou a ler uns escritos de um ucraniano que está a aprender a língua portuguesa.

 

A linguagem é degradante. Engraçado como o facto de ter sido escrita por Miguel Esteves Cardoso é vista como irreverente mas se lêssemos ou ouvíssemos – e ouvimos! - as mesmas frases por um individuo incógnito, seria considerado racista, mal-educado, sem formação, etc. Por ser Miguel Esteves Cardoso, ganha um estatuto diferente?? Parece-me hipócrita da sociedade...

 

Apesar de tudo, é uma obra que conquistou muitos leitores… é um daqueles casos que não deixa ninguém indiferente, ou se ama ou se odeia. Se foi escrito para chocar, o objetivo foi, sem dúvida, alcançado...

 

Súplicas Atendidas

Sara, 03.11.11

 

Autor: Truman Capote

Editora: Edições Asa

Ano de Edição: 1993

Título Original: Answered Prayers

ISBN: 972-41-1290-x

N.º Pág.: 217

 

 

O protagonista do romance é um bissexual, filho de pais incógnitos, que fugiu de um orfanato aos treze anos para levar uma vida de expedientes e de permanente itinerância. Com estas características, seria aparentemente fácil achá-lo monstruoso. Na verdade, não é isso o que sucede, porque o seu humor e o seu encanto são tais que o leitor cedo se rende ao fascínio que dele emana. Nestas páginas repletas de personagens estranhas e maridos sádicos, mulheres inteligentes e belas, e abundantes em histórias escandalosas e em maledicência, encontram-se também alguns dos mais interessantes e poderosos retratos que a literatura nos legou.

 

A controvérsia deste livro começou bem antes da sua publicação. Truman, que se movimentava na alta sociedade nova-iorquina e era íntimo de algumas celebridades, semeou o terror ao desvendar dois dos capítulos deste livro na revista americana Esquire. Acontece que estes capítulos tratavam sobre a vida dessas mesmas celebridades e sobre os seus segredos mais íntimos e, perante a estupefacção dos retratados por Capote, este respondeu “De que é que eles estavam à espera? Sou escritor. Utilizo tudo. Será que essa gente julgava que eu estava lá só para os divertir?” Mas ele sabia o risco que corria pois afirmou que o romance iria ser publicado a título póstumo, explicando “either I'm going to kill it, or it's going to kill me”.

 

Posto estas curiosidades à parte, ou se gosta ou não deste livro, não há aqui lugar para meio-termo. E eu adorei. Já tinha lido “Breakfast at Tiffany’s”, o romance que me apresentou Truman Capote e a sua escrita. Agora com “Súplicas Atendidas” fiquei verdadeiramente fascinada com a forma como este escritor usa as palavras, constrói as frases e como consegue provocar sentimentos no leitor. Ao longo do livro, foram várias as vezes que ri, que fiquei chocada e que me fizeram reflectir. E, na minha opinião, um bom livro faz isto, provoca reacções no leitor, faz dele uma parte integrante do livro e não apenas um observador.

 

Podes ler aqui um excerto do livro.

 

Eis algumas reacções a este livro:

 

"Chocantemente repugnante e completamente difamatório.", Tennessee Williams

 

"Capote morde as mãos que o alimentam.", New York Magazine

 

"Aquele serzinho desprezível e sujo nunca mais vai colocar os pés nas minhas festas.", Nedda Logan (actriz)

A História do Senhor Sommer

Sara, 11.08.11

 

Autor: Patrick Süskind

Editora: Sextante Editora

Ano de Edição: 2007

Título Original: Die Geschichte von Herrn Sommer

Tradução: Maria Castro Dias

ISBN: 978-989-8093-31-8

N.º Pág.: 102

 

 

 

 

“No tempo em que eu ainda trepava às árvores, vivia na nossa aldeia, a uns dois quilómetros da nossa casa, um homem a quem chamavam senhor Sommer. Ninguém sabia qual era o seu nome de baptismo e também ninguém sabia se ele tinha ou não uma profissão.

Mas embora pouco se soubesse sobre o senhor Sommer, toda a gente o conhecia, pois andava permanentemente de um lado para o outro. Podia nevar ou cair granizo, podia estar um temporal ou chove a cântaros, podia o sol queimar ou aproximar-se um furacão, como uma alma penada, atravessando a paisagem e os sonhos do narrador..”

 

 

 

Já há uns tempos tinha lido o “Perfume”, uma das minhas obras preferidas e quando vi outro romance deste autor nas prateleiras da biblioteca de praia nem pensei duas vezes!

Esta é a história do morador mais conhecido do Lugar de Baixo, o senhor Sommer, descrita por alguém que recorda os seus tempos de juventude de há muitos anos atrás. O sr. Sommer é um homem que, em todo o seu tempo de vida passado no Lugar de Baixo, caminha de um lado para o outro, incessantemente sem nunca parar. E por esta razão faz parte da vida de todos os moradores, surgindo sempre no pano de fundo. Ele está presente quando o narrador vai para a escola, quando regressa a casa, quando se apaixona pela Carolina, quando vai até às aulas de piano e quando planeia a morte numa copa de árvore depois de uma conturbada aula em que se recusa a tocar um fá sustenido após a professora ter espirrado e projectado o seu ranho para essa tecla preta do piano.

Os vizinhos do sr. Sommer defendem várias teorias para as caminhadas deste e, mais tarde, teorias que explicam o seu desaparecimento mas apenas o narrador conhece o seu paradeiro e só agora o revela, ao leitor.

 

Relativamente à escrita não é tão descritiva como acontece em “O Perfume” dando uma sensação de simplicidade que leva o leitor a recordar os seus tempos de infância. Em apenas cem páginas, há momentos comoventes, de acção e hilariantes, estando alguns deles representados na ilustração de Sempé.

 

O Leitor

Sara, 04.05.11

 

Autor: Bernhard Schlink

Editora: Edições Asa

Ano de Edição: 1998

Título Original: Der Vorleser

Tradução: Fátima Freire de Andrade

ISBN: 978-972-41-2009-6

N.º Pág.: 144

 

 

“Em 1960, Michael Berg é iniciado no amor por Hanna Schmitz. Ele tem 15 anos, ela 36. Ele é apenas um adolescente. Ela é uma mulher madura, bela, sensual e autoritária. Os seus encontros decorrem como um ritual: primeiro banham-se, depois ele lê, ela escuta e finalmente fazem amor. Mas este período de felicidade incerta tem um fim abrupto quando Hanna desaparece subitamente. Michael só a encontrará muitos anos mais tarde, envolvida num processo de acusação a ex-guardas dos campos de concentração nazis. Inicia-se então uma reflexão metódica e dolorosa sobre a legitimidade de uma geração, a braços com a vergonha, julgar a geração anterior, responsável por vários crimes.”

 

Esta história divide-se em três partes. Na primeira parte, Michael regressa ao passado e recorda-se como tudo começou. Pelo Outono, Michael sente-se mal e acaba por vomitar perto da casa de Hanna, mulher que o encontra e o acompanha até casa. Duas estações após o diagnóstico de icterícia, Michael leva-lhe um ramo de flores como forma de agradecimento e, nessa visita, acaba por observá-la, através de uma porta entreaberta, a mudar de roupa. Apanhado em flagrante Michael acaba por fugir dali. No entanto, uma semana mais tarde, a curiosidade e o desejo fazem-no regressar a casa de Hanna, originando o primeiro contacto mais íntimo. Seguem-se meses de uma complexa relação até ao dia em que Hanna desaparece sem deixar qualquer rasto.

A segunda parte acompanha o julgamento de Hanna, ex-guarda de campos de concentração nazis. Michael, estudante de Direito, segue todo o processo e, entre muitas reflexões, descobre o seu segredo. Chocado questiona-se repetidamente. Como não se apercebeu antes? Porque razão Hanna deixou tudo aquilo chegar tão longe? Assumir crimes que nem sequer tinha cometido para evitar revelar o seu segredo? E, agora, que faria ele? Manter-se-ia como espectador ou tornar-se-ia participante naquele processo? Afinal tinha em seu poder informações que poderiam alterar a decisão final…

Na terceira parte, após a sentença ter sido promulgada, Michael termina o curso e prossegue com a sua vida mas sem nunca esquecendo Hanna. Mais tarde, Michael volta a contactar Hanna com frequência, possibilitando Hanna libertar-se do seu segredo.

 

Esta foi uma das minhas leituras preferidas de 2010. Não acredito que a escrita de Bernhard Schlink deixe alguém indiferente. Estamos perante um daqueles livros que após o primeiro capítulo não conseguimos parar de ler. Li-o num ápice. Gostei imenso do alternar entre as memórias de Michael e as suas reflexões e adorei a descrição dos vários cenários e das várias personagens. Gostei também da referência a diversos livros que vai acompanhando todo o romance.

 

“Até onde iria para proteger um segredo?”

 

Be.

P.S. - Eu Amo-te

Sara, 05.08.10

 

Autor: Cecilia Ahern

Editora: Editorial Presença

Ano de Edição: 2009

Título Original: P.S. – I Love You

Tradução: Helena Barbas

N.º Pág.: 393

 

 

 

 

“Quase todas as noites Holly e Gerry tinham a sua private discussion – qual dos dois é que se ia levantar, enfrentar o frio soalho de tijoleira e voltar tacteando pateticamente para a cama? Comprar um candeeiro de mesa-de-cabeceira parecia não fazer parte dos seus planos, e assim o episódio da luz repetia-se a cada noite, num ritual cómico a que nenhum desejava, aparentemente, pôr termo. Agora, ao recordar esses momentos de pura felicidade, Holly sentia-se perdida num presente sem Gerry. Mas ele conhecia-a demasiado bem para a deixar no mundo sozinha e sem rumo. Por isso, imaginou de forma engenhosa de perpetuar ainda por algum tempo a sua presença junto da mulher que amava, incentivando-a a aprender a viver de novo.”

 

Cecilia Ahern conta a história de Holly, após perder o seu grande amor da sua vida, Gerry, vítima de um tumor cerebral. Gerry, antecipando o sofrimento e saudade de Holly, preparou-lhe dez cartas, com o nome de cada mês escrito nos sobrescritos.

Cada carta traz uma mensagem de Gerry e um desafio que Holly terá de enfrentar.

 

Ao longo do ano de luto, conhecemos a família de Holly, as suas melhores amigas e todos os que vão surgindo e que a vão acompanhando neste processo.

 

Este é um género literário que não me chama muito a atenção, comprei-o em desconto e apenas porque já tinha ouvido falar de Cecilia Ahern…

 

Virei as 400 páginas para descobrir o que Gerry lhe reservava para o mês seguinte, para além disso, em termos de conteúdo não trouxe nada de novo. No entanto, gostei da escrita da autora e sou capaz de lhe dar uma nova oportunidade – tenho cá em casa outro livro dela, entretanto ganho num passatempo.

 

Foi, por ser um romance leve e sem cair no piroso, uma opção agradável de leitura numa altura de avaliações na faculdade.

 

Pontuação: 5/10

 

Be.

 

Rebeca

Sara, 02.02.10

Rebeca é um romance de Daphne du Maurier que a tornou, com a sua publicação, uma das escritoras mais populares de então. E ainda hoje, este romance é considerado como uma das suas melhores obras.
 
A obra começa com a descrição de um sonho que a narradora - cujo nome nunca é revelado, sabemos apenas ser um nome pouco comum - acabou de ter referente a uma casa em Inglaterra na qual viveu, Manderley. E a partir daqui dá-se uma analepse até à altura em que era recém-saída do colégio e dama de companhia de Mrs. Van Hopper, mulher que forçava o convívio com todas as pessoas cujo nome aparecesse nas revistas sociais.
Enquanto dama de companhia, a narradora sente-se apenas uma criança e este sentimento mantém-se durante bastante tempo, deseja ser mais velha, ser vista de forma diferente, anseios motivados pela sua constante convicção de ser incapaz de se integrar em círculos sociais e de ser aprovada como esposa de alguém bastante rico e importante.
 
A obra percorre a vida da narradora desde a sua suposta aprendizagem junto de Mrs. Van Hopper até ao momento actual que é apresentado no início da leitura, é um relembrar da sua vida desde os tempos de criança até mulher. Desenrolar esse, viciante.
 
Rebeca é o nome da mulher que a atormenta permanentemente, que a persegue por todos os cantos da casa, por todos os seus passeios no jardim. E não será apenas Rebeca a atemorizar os seus dias mas também a que mais lhe é fiel, Mrs. Danvers, criatura que se mostra intimidadora e cruel desde o primeiro momento.
 
A obra é muito rica não só na forma de escrita de Daphne du Maurier com passagens deliciosas de descrições de paisagens, da casa, de objectos, das várias personagens que a personagem principal vai conhecendo como pela exploração da natureza humana e de todos os sentimentos retratados que vão desde o amor, paixão, amizade, lealdade, interesse, intriga, desespero, traição, vingança, obsessão, ódio, não sei se haverá sequer algum sentimento que não esteja incluído em toda a trama!
 
Fiquei apaixonada pela forma como a escritora se expressa e como vai tecendo a história, foi uma das minhas leituras preferidas de 2009!
 
“O terraço dominava o relvado, que se estendia até ao mar; voltando-me, pude ver a toalha prateada, muito calma sob o olhar da Lua, de uma placidez de lago que o vento não perturba.”
 
Pontuação: 9/10
 
 
Curiosidade: Durante a Segunda Guerra Mundial, os Alemães decidiram usar uma edição deste romance para formar frases a partir de palavras codificadas pelo número de página, linha e posição que tomavam na obra. Apenas não foi posto em prática pois pensavam que esta táctica tinha sido descoberta, logo comprometida. Esta curiosidade é referida no romance de Ken Follett, “A Chave de Rebeca”.
 
 

Firmin

Sara, 28.01.10

 
 
Autor: Sam Savage
Editora: Planeta
Ano de Edição: 2009
Título Original: Adventures of a Metropolitan Lowlife
Tradução: Sofia Gomes
Ilustração: Fernando Krahn
N.º Páginas: 155
ISBN: 978-989-675-001-9
 
 
“Nascido na cave da Pembroke Books, uma livraria de Boston dos anos 60, Firmin aprendeu a ler devorando as páginas de um livro. Mas uma ratazana culta é uma ratazana solitária. Marginalizado pela família, procura a amizade do seu herói, o livreiro, e de um escritor fracassado. À medida que Firmin desenvolve uma fome insaciável pelos livros, a sua emoção e os seus medos tornam-se humanos. É uma alma delicada presa num corpo de ratazana e essa é a sua tragédia”
 
Firmin foi um livro lido em dois dias, de leitura fácil, que me tocou o coração e me fez pensar. Se por um lado o livro me atraia por ter como pano de fundo a paixão pelos livros por outro, o facto de ser uma ratazana a personagem principal fazia-me torcer o nariz… confesso que ratazanas enfim, prefiro-as bem longe de mim. xD
 
Mas o Firmin conquistou-me facilmente o coração. Assistimos ao seu nascimento, o último de uma ninhada de treze, e aqui o treze nada de auspicioso traz, desde cedo Firmin tem de lutar para se alimentar pois a mãe Flo, como todas as ratazanas, tem apenas 12 tetas. Assistimos aos primeiros passos e às primeiras diferenças entre ele e os irmãos. Firmin é um ser racional, emocional, enclausurado no seu corpo de ratazana. E assistimos ao seu crescimento e à tentativa de mostrar a nós, seres humanos, que nos ouve, que partilha o mesmo tipo de emoções mas que não consegue simplesmente falar connosco por não possuir as cordas vocais adequadas.
 
A vida de Firmin é um conjunto de peripécias que, com muito sentido de humor, vai atribuindo-lhes nomes como “Perseguição e Fuga nas Cidades mais Antigas da América”, “O Primeiro Ser Humano que F. Amou” e “Veneno para Ratos, ou Um Amor Traído”. Por outro lado temos também uma reflexão constante sobre o amor, a amizade, a desilusão e a solidão, sobre o sentido da vida.
 
E esta história é também sobre nós, amantes da leitura, pessoas que tiram prazer de uma simples ida a uma livraria ou biblioteca, de um encontrar entre muitos livros aquele especial que procurávamos há muito, do saborear ao virar de cada página a nova realidade que o livro nos mostra, de todas estas pequenas coisas que nos prendem sempre.
 
Firmin é a estreia de Sam Savage, licenciado e doutorado em Filosofia em Yale e com um percurso de vida peculiar.
 
Pontuação: 8/10

 

 

Cândido

Sara, 01.09.09
“Contra o optimismo a todo o preço insurge Voltaire. Não elaborando um novo sistema filosófico, mas tão-somente deixando gritar a realidade dos factos, num romance curto mas causticamente satírico, em que Cândido, o herói, educado por mestre Pangloss (encarnação grotesca do optimismo), continuamente esbarra contra o muro da maldade humana e tropeça de desgraça em desgraça, no decurso de uma peregrinação pelo mundo que o faz passar por Lisboa, onde é surpreendido pelo terramoto de 1755.”.
 
 
Cândido, clássico da literatura, é um pequeno romance satírico de Voltaire em resposta a um sistema filosófico de então, defendida por Leibniz e Wolff, que procurava explicar a existência simultânea de um Deus e um mundo onde existem catástrofes, miséria, pobreza, entre outros males. Leibniz, seguido de Wolff, acreditavam que “(…) ao determinar-se a criar o universo, Deus seleccionou o melhor dos mundos possíveis. Se a ciência divina oferecia ao Criador um imenso leque de possibilidades de escolha, a sua bondade infinita levou-o a optar pelo melhor. (…) O mal, sem dúvida uma realidade, representa algo de metaforicamente inevitável, na medida em que resulta da imperfeição própria de todo o ser criado (…) Mas, sendo apenas questões de pormenor na globalidade do universo, as imperfeições nele existentes realçam a bondade, a beleza e a harmonia do todo.”
 
O romance apresenta Cândido como aluno desmedidamente crédulo de Pangloss, o mestre que o educa e acredita no optimismo de Leibniz.
Cândido vive um conjunto de caricatas peripécias, ingénuo vai teimando nos ensinamentos do seu Pangloss contra a realidade que o vai testando em vão. Mas, se no início Cândido parece agarrar-se desesperadamente a esses ensinamentos, a quantidade de dor, sofrimento, infortúnio, doença e azar que vai observando, e mesmo vivendo, acaba por abalar os seus pilares de convicção. Conta-se então a história da desilusão de um homem à medida que vai conhecendo as pessoas, o mundo.
 
O romance inicia-se na Vestefália, no castelo do Barão de Thunder-tem-tronckh, onde Cândido vive e sobre o qual os criados suspeitam que seja filho da irmã do Barão. No castelo, para além do Barão e de Cândido, vive também a Baronesa e os dois filhos, o futuro Barão e a sua irmã, Cunegundes. E é logo no início do romance que Cândido é expulso do castelo após o Barão tê-lo encontrado, atrás de um biombo, beijando a sua filha Cunegundes.
A partir deste momento, no qual Cândido é atirado para o mundo exterior, a sequência dos acontecimentos dá-se a um ritmo impraticável, onde os próprios acontecimentos são ora ridículos, grotescos, inacreditáveis ou mirabolantes, ou mesmo tudo junto. Mas é mesmo esse o objectivo de Voltaire, onde todo o humor satírico da obra permanece. Personagens mortas que regressam à vida, homens que se alimentam de nádegas de senhoras quando estão esfomeados, uma ceia em Veneza onde Cândido encontra, inacreditavelmente, seis reis destronados, tudo é provável nesta obra. Ou se ama ou se detesta, impossível é ficar indiferente!
Para mim? Brilhante e certamente irei relê-la, é uma obra onde se encontram sempre novos pormenores, onde as personagens parecem reais pelo seu sofrimento e onde todo o acontecimento, por mais pequeno que seja, tem um grande significado. Adorei a personagem Martin, um velho sábio, que Cândido conhece a meio da história, e que ao ouvir este falar sobre o seu Pangloss critica as crenças do filósofo. Tenho a certeza que Martin, perante a convicção cega e teimosia de Cândido, só lhe apetecia bater, literalmente, com a cabeça nas paredes…!
 
Voltaire (François Marie Arouet), nascido em Paris, a 12 de Novembro de 1964, foi um escritor filósofo francês, que defendeu a liberdade do indivíduo, e grande figura do Iluminismo. Escreveu inúmeras peças de teatro, poesia, romances, ensaios, trabalhos históricos e científicos. Defendeu, abertamente, a reforma social apesar das consequências que existiam na altura a quem se pronunciasse. Também, criticou o dogma da Igreja, através dos seus trabalhos, sempre polémicos.
 
Curiosidade: Nas suas viagens, Cândido passa por Lisboa, na altura do terramoto de 1755, e esse terramoto é usado como um dos argumentos contra a filosofia de Pangloss: uma catástrofe dessas é inexplicável no “melhor dos mundos possíveis”.
 

Breakfast at Tiffany's (Boneca de Luxo)

Sara, 29.08.09

 

“Holly Golighly é mais do que uma boneca de luxo. Deslumbrante, espirituosa e ternamente vulnerável, inquietando as vidas dos que com ela se cruzam, é retratada por Truman Capote em Breakfast at Tiffany´s (Boneca de Luxo), um romance tocante e singelo sobre a amizade, que constitui uma autêntica história de sedução.”
 
Tudo começa quando o narrador, amigo e antigo vizinho de Holly é contactado por Joe, o dono do bar, bar esse que se localiza perto do prédio onde viviam, com quem conviviam ocasionalmente. O narrador, cujo nome real nunca conhecemos, sentiu imediatamente que aquele inesperado telefonema só poderia ter algo a ver com Holly, o único motivo que ainda os ligava. Assim, foi ter com Joe que lhe mostrou umas fotos onde aparecia uma escultura africana de madeira de uma rapariga que era nitidamente Holly.
Esta é a deixa para o recuar no tempo, recordando o momento em que, após ter sido acordado, várias vezes, a meio da noite para lhe abrir a porta do prédio, conheceu Holly quando esta entrou em sua casa pela janela, esbaforida devido a um homem que estava em sua casa, e chamando-o de “Fred” pois lhe lembrava o irmão mais novo. A verdadeira amizade que vamos testemunhando e vivendo ao longo da obra começa aqui.
 
A acção passa-se em Nova Iorque, nos anos 40, entre dois Outonos, iniciando-se na véspera do 19º aniversário de Holly. “Fred” torna-se íntimo e confidente de Holly desde que esta lhe entra, pela janela, em sua casa. Holly é uma personagem fascinante, que vai chocando o leitor à medida que “Fred” vai descobrindo mais um pouco sobre a sua vida e mudando a visão que tem sobre ela, enquanto pessoa, parecendo no início uma mulher independente e muito segura de si, fazendo parte de Nova Iorque, revelando-se numa menina que está longe de ter uma origem citadina e que procura, desesperadamente, algo que a faça sentir em casa.
 
Curiosidade: Truman Capote afirmou que Holly, entre todas as personagens que criou, era a sua preferida e que “Breakfast at Tiffany’s” constituiu um ponto de viragem no seu trabalho.
Norman Mailer afirmou que Capote era o escritor mais perfeito da sua geração e que não alteraria qualquer palavra de “Breakfast at Tiffany’s”.