Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Às 23h

Livros na Minha Cabeceira

Às 23h

Livros na Minha Cabeceira

Rebeca

Sara, 02.02.10

Rebeca é um romance de Daphne du Maurier que a tornou, com a sua publicação, uma das escritoras mais populares de então. E ainda hoje, este romance é considerado como uma das suas melhores obras.
 
A obra começa com a descrição de um sonho que a narradora - cujo nome nunca é revelado, sabemos apenas ser um nome pouco comum - acabou de ter referente a uma casa em Inglaterra na qual viveu, Manderley. E a partir daqui dá-se uma analepse até à altura em que era recém-saída do colégio e dama de companhia de Mrs. Van Hopper, mulher que forçava o convívio com todas as pessoas cujo nome aparecesse nas revistas sociais.
Enquanto dama de companhia, a narradora sente-se apenas uma criança e este sentimento mantém-se durante bastante tempo, deseja ser mais velha, ser vista de forma diferente, anseios motivados pela sua constante convicção de ser incapaz de se integrar em círculos sociais e de ser aprovada como esposa de alguém bastante rico e importante.
 
A obra percorre a vida da narradora desde a sua suposta aprendizagem junto de Mrs. Van Hopper até ao momento actual que é apresentado no início da leitura, é um relembrar da sua vida desde os tempos de criança até mulher. Desenrolar esse, viciante.
 
Rebeca é o nome da mulher que a atormenta permanentemente, que a persegue por todos os cantos da casa, por todos os seus passeios no jardim. E não será apenas Rebeca a atemorizar os seus dias mas também a que mais lhe é fiel, Mrs. Danvers, criatura que se mostra intimidadora e cruel desde o primeiro momento.
 
A obra é muito rica não só na forma de escrita de Daphne du Maurier com passagens deliciosas de descrições de paisagens, da casa, de objectos, das várias personagens que a personagem principal vai conhecendo como pela exploração da natureza humana e de todos os sentimentos retratados que vão desde o amor, paixão, amizade, lealdade, interesse, intriga, desespero, traição, vingança, obsessão, ódio, não sei se haverá sequer algum sentimento que não esteja incluído em toda a trama!
 
Fiquei apaixonada pela forma como a escritora se expressa e como vai tecendo a história, foi uma das minhas leituras preferidas de 2009!
 
“O terraço dominava o relvado, que se estendia até ao mar; voltando-me, pude ver a toalha prateada, muito calma sob o olhar da Lua, de uma placidez de lago que o vento não perturba.”
 
Pontuação: 9/10
 
 
Curiosidade: Durante a Segunda Guerra Mundial, os Alemães decidiram usar uma edição deste romance para formar frases a partir de palavras codificadas pelo número de página, linha e posição que tomavam na obra. Apenas não foi posto em prática pois pensavam que esta táctica tinha sido descoberta, logo comprometida. Esta curiosidade é referida no romance de Ken Follett, “A Chave de Rebeca”.
 
 

NeverWhere

Sara, 28.12.09

“Gaiman representa Londres não só como uma cidade mas como duas, a Londres-de-Cima e a Londres-de-Baixo. São dois mundos que coexistem, e se ignoram, articulados por uma única estrutura ordenada: a rede do metropolitano. (…) A um mundo de aparente racionalidade contrapõe-se um outro, insuspeitado, com as suas próprias leis, habitado por personagens bizarras, encerrando perigos e maravilhas. (…) Esta fantasia urbana, thriller psicológico (será sempre algo mais) é Gaiman no seu melhor, brilhante, cheio de espírito, sublime de inspiração, resplandecente de humor e graça, mesmo quando é assustador”

 
“NeverWhere” foi a última leitura que conclui em 2009 e posso dizer que acabei em grande, foi uma das minhas leituras preferidas!
 
No género fantástico sou uma leitora principiante e dos poucos que li, com excepção de “Danças na Floresta” de Juliet Marrillier, o primeiro que li dessa escritora, nada me tinha chamado a atenção.
 
Já “NeverWhere” prendeu-me desde o início. Começamos por conhecer Richard, na sua festa de despedida na noite de véspera de mudança para Londres onde lhe esperava o seu novo trabalho na área dos seguros. E é precisamente durante essa festa, num intervalo em que Richard sai do pub para apanhar um pouco de ar fresco que nos apercebemos que a sua mudança para Londres não é uma simples mudança, Richard encontra uma misteriosa velha que o aconselha a tomar conta de si próprio e a estar atento a portas, depois de lhe ler a palma da mão.
 
E é em Londres que Richard conhece Door, uma rapariga fugitiva que ele encontra estendida sobre o passeio, suja, ferida e a sangrar. Ao contrário de Jessica, a noiva de Richard com prioridades algo trocadas, que passou sobre o vulto que jazia no chão, ignorando-o, Richard socorreu imediatamente Door, acabando por levá-la para casa e abandonando Jessica, que o colocou entre a espada e a parede.
 
A preocupação de Richard por Door, a ajuda prestada, tornou-se no seu pesadelo. Da noite para o dia, Richard tornou-se invisível no mundo que conhecemos. Começa por ser visitado por duas sinistras criaturas, Mr. Vandemar e Mr. Croup, assassinos da Londres-de-Baixo que perseguem Door, tornando-se agora também Richard num fugitivo. Sem outra solução, Richard acompanha Door a Londres-de-Baixo, um mundo onde as paragens de metropolitano escondem as personagens mais caricatas que possam imaginar, onde as ratazanas interligam ambos os mundos e ajudam, juntamente com Richard e outras duas importantes personagens desta história, Door na sua causa: procurar o anjo Islington que a ajudará a descobrir quem aniquilou a sua família.
                                      Ilustração de Marc Brownlow
 
Adorei a escrita que me prendeu, as personagens e o enredo da história. A descrição das diferentes criaturas de Londres-de-Baixo está de tal forma conseguida que imaginamo-las como se existissem de facto. Nesta leitura esperam-nos várias surpresas e mostra como nem tudo o que aparenta ser é-o de facto.
Há aventura, mistério, amor, desilusão, traição e terror, tudo q.b.
 

Morte No Nilo

Sara, 29.10.09

 

 

“A tranquilidade de um cruzeiro ao longo do Nilo é ensombrada pela descoberta do cadáver de Linnet Ridgeway. Ela era jovem e bela; e tinha tudo… até perder a vida! Hercule Poirot apercebe-se de que, a bordo do navio, todos os passageiros são possíveis assassinos: pelas mais diversas razões, todos tinham algo a apontar a Linnet. Mas quem terá sido levado ao acto extremo de a alvejar? Ainda que tudo aponte para a mesma pessoa, o detective cedo descobre que naquele cenário exótico nada é exactamente o que parece.”
 
Na mais recente Leitura Conjunta da Estante de Livros, debruçámo-nos, como já tinha referido, sobre um policial de Agatha Christie, “Morte no Nilo”.
 
A história começa pouco antes da viagem para o Nilo, apresentando-nos Linnet Ridgeway, uma jovem de cabelos doirados, atraente, que herdou do avô uma verdadeira fortuna e por quem Lord Windlesham está apaixonado. Linnet acaba de comprar uma grande propriedade e entretém-se a decorá-la, com a ajuda de três arquitectos, e na companhia da sua prima Joana. Entretanto Jacqueline, a sua amiga de muitos anos, pede-lhe ajuda. Jackie está noiva e muito apaixonada e pede a Linnet que arranje trabalho para o seu noivo, Simon, possibilitando assim o casamento de ambos e um futuro. Linnet ajuda a amiga mas quando lhe é apresentada a Simon, deslumbra-se e sente-se angustiada por Simon não ser seu.
 
Nos capítulos seguintes, são-nos apresentados praticamente todas as personagens que farão parte da viagem no Nilo, incluindo Poirot, o famoso detective, sempre duma forma muito interessante e que nos prende à história.
 
A morte de Linnet, na descida do Nilo, será o quebra-cabeças desta história, onde todas as personagens poderão ter um motivo para a odiar, invejar, sentir ciúmes ou mesmo para a matar. Poirot conduz-nos na sua investigação, entre muitos acontecimentos inesperados, de forma sempre sensata, inteligente mas discreta, deixando-o ao leitor a possibilidade de ir tentando adivinhar quem seria capaz de tal crime.
 
Pessoalmente, fiquei um pouco desiludida com o final por ser demasiado melodramático. Mas gostos são gostos! Mas não há dúvida que ler Agatha Christie é uma delicia e pode tornar-se bastante viciante!

 

 

 

Um Cântico de Natal. O Livro. A Peça. O Filme.

Sara, 22.10.09

“Com esta narrativa, Dickens inventou o moderno espírito natalício e ofereceu-nos uma das mais inspiradoras e recriadas histórias de sempre. As suas personagens, Scrooge, o pequeno Tim e os Três Fantasmas do Natal (Passado, Presente e Futuro), são nos dias de hoje ícones do verdadeiro significado do Natal”.

 

 
Quando me apercebi que este conto ia ser adaptado ao cinema e ao teatro nem pensei duas vezes: próxima leitura!
 
Já conhecia o Sr. Scrooge pois é muito referido em filmes, livros, etc. mas não fazia ideia de qual era a origem desta personagem! E fiquei admirada quando comecei a ler o conto, tendo logo, no primeiro parágrafo, várias referências a ele. Depois em conversa com a Reader (a escritora Catarina Coelho) soube que tinha sido Charles Dickens o criador do Sr. Scrooge!
 
“Um Cântico de Natal” conta a história de um homem amargo, avarento, solitário e de mal com a vida, o Sr. Scrooge, que na véspera de Natal é visitado pelo fantasma de Marley, o ex-sócio dele, que morreu há sete anos atrás. Marley aparece-lhe acorrentado e explica-lhe que está preso pela corrente que forjou ao longo da sua vida. E que ao contrário dele, e apesar de Scrooge caminhar na mesma direcção, ainda tem uma oportunidade de se redimir. Marley conta-lhe que nas próximas noites, Scrooge irá ser visitado por três espíritos, que será esta a sua última esperança.
 
O conto apesar de único, é pequeno e bastante simples, o que faz com que não me possa alongar muito, não quero contar como se desenrola o aparecimento dos fantasmas e muito menos o final do Sr. Scrooge!
 
Mas espera-vos uma leitura inesquecível, um conto brilhante e com um toque especial ao caminharmos para o Natal!
 
 

Os Homens que Odeiam as Mulheres

Sara, 11.10.09

 

"Os Homens que Odeiam as Mulheres" foi uma das leituras mais completas e intrigantes com que me deliciei, compulsivamente, até hoje.
 
“O jornalista de economia Mikael Blomkvist precisa de uma pausa. Acabou de ser julgado por difamação ao financeiro Hans-Erik Wennerström e condenado a três meses de prisão. Decide afastar-se temporariamente das suas funções na revista Millenium.
Na mesma altura, é encarregado de uma missão invulgar. Henrik Vanger, em tempos um dos mais importantes industriais da Suécia, quer que Mikael Blomkvist escreva a história da família é apenas uma capa para a verdadeira missão de Blomvist: descobrir o que aconteceu à sobrinha-neta de Vanger, que desapareceu sem deixar rasto há quase quarenta anos. Algo que Henrik Vanger nunca pôde esquecer.
 
Blomkvist aceita a missão com relutância e recorre à ajuda da jovem Lisbeth Salander. Uma rapariga complicada, com tatuagens e piercings, mas também uma hacker de excepção.
 
Juntos, Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander mergulham no passado profundo da família Vanger e encontram uma história mais sombria e sangrenta do que jamais poderiam imaginar.”
 
Quanto ao género policial, li alguns de Agatha Christie, a Rainha do Crime, que adoro, e o “Talentoso Mr. Ripley” de Patrícia Highsmith.
 
“Os Homens que Odeiam as Mulheres” é muito mais que um policial. A história não se limita a explorar o mistério por desvendar. O leitor segue, principalmente, duas vidas, a dos investigadores, Mikael e Lisbeth, inicialmente em paralelo e depois a ligação especial que se cria entre eles.
 
A escrita é simples mas inebriante, os pormenores que vão sendo revelados acerca das personagens, do presente ou passado, constroem mais que uma personagem, uma pessoa real.
 
Sofremos com os acontecimentos, debruçamo-nos nas suas investigações, tal como se fossemos um deles. Rezamos para que nada de mal lhes aconteça e quando isso se dá, ansiamos pela sua segurança.
 
De uma coisa é certa: vivemos com este livro!
 
Quanto à adaptação ao cinema, já fui vê-la e adorei!
 

Breakfast at Tiffany's (Boneca de Luxo)

Sara, 29.08.09

 

“Holly Golighly é mais do que uma boneca de luxo. Deslumbrante, espirituosa e ternamente vulnerável, inquietando as vidas dos que com ela se cruzam, é retratada por Truman Capote em Breakfast at Tiffany´s (Boneca de Luxo), um romance tocante e singelo sobre a amizade, que constitui uma autêntica história de sedução.”
 
Tudo começa quando o narrador, amigo e antigo vizinho de Holly é contactado por Joe, o dono do bar, bar esse que se localiza perto do prédio onde viviam, com quem conviviam ocasionalmente. O narrador, cujo nome real nunca conhecemos, sentiu imediatamente que aquele inesperado telefonema só poderia ter algo a ver com Holly, o único motivo que ainda os ligava. Assim, foi ter com Joe que lhe mostrou umas fotos onde aparecia uma escultura africana de madeira de uma rapariga que era nitidamente Holly.
Esta é a deixa para o recuar no tempo, recordando o momento em que, após ter sido acordado, várias vezes, a meio da noite para lhe abrir a porta do prédio, conheceu Holly quando esta entrou em sua casa pela janela, esbaforida devido a um homem que estava em sua casa, e chamando-o de “Fred” pois lhe lembrava o irmão mais novo. A verdadeira amizade que vamos testemunhando e vivendo ao longo da obra começa aqui.
 
A acção passa-se em Nova Iorque, nos anos 40, entre dois Outonos, iniciando-se na véspera do 19º aniversário de Holly. “Fred” torna-se íntimo e confidente de Holly desde que esta lhe entra, pela janela, em sua casa. Holly é uma personagem fascinante, que vai chocando o leitor à medida que “Fred” vai descobrindo mais um pouco sobre a sua vida e mudando a visão que tem sobre ela, enquanto pessoa, parecendo no início uma mulher independente e muito segura de si, fazendo parte de Nova Iorque, revelando-se numa menina que está longe de ter uma origem citadina e que procura, desesperadamente, algo que a faça sentir em casa.
 
Curiosidade: Truman Capote afirmou que Holly, entre todas as personagens que criou, era a sua preferida e que “Breakfast at Tiffany’s” constituiu um ponto de viragem no seu trabalho.
Norman Mailer afirmou que Capote era o escritor mais perfeito da sua geração e que não alteraria qualquer palavra de “Breakfast at Tiffany’s”.
 

O Inverno do Nosso Descontentamento

Sara, 19.08.09

“O Inverno do Nosso Descontentamento” foi o último romance de Steinbeck, um grande escritor americano, laureado com o Prémio Nobel e com o Pullitzer, publicado antes da sua morte.

 
“Em O Inverno do Nosso Descontentamento são colocados no primeiro plano os temas sociais que conferiram às obras de Steinbeck o pleno interesse com que o público as absorve. O núcleo deste romance é o dinheiro, a hipocrisia e os falsos valores, a crítica serena mas implacável às engrenagens de toda a sociedade que mutile o homem no que ele tem de autêntico”
 
A obra centra-se na personagem Ethan Allen Hawley, descendente dos fundadores da cidade New Baytown, capitães e pescadores de baleias, que deles apenas herda o apelido e a casa onde sempre viveu pois o pouco que o pai não perdeu, algumas terras, casas e uma mercearia e frutaria onde agora trabalha, Ethan não conseguiu salvar numa altura de plena crise, saído do exército e sem qualquer experiência comercial.
 
 
Em Perlock Street, rua próxima da casa de Ethan, localizam-se os mais belos edifícios de toda a cidade, construídos com ideias e objectos vindos das viagens dos navios baleeiros à China e também com influências gregas que os arquitectos contratados pelas famílias mais ricas traziam consigo. Para além desta riqueza cultural, tinham uma curiosa característica, o “passeio das viúvas” construído sobre os telhados das casas, de onde as mulheres avistavam o regresso dos navios.
Perlock Street é também a rua que leva Ethan até ao Porto Velho, onde é situado o seu “lugar” que Ethan acredita que toda a gente precise de ter para reflectir e lembrar.
 
Como é comum nas obras de Steinbeck, existe uma reflexão sobre vários temas, neste caso, a moral, os princípios, a honestidade e integridade.
 
Ethan é casado com Mary com quem tem dois filhos adolescentes, Allen e Mary Ellen. Ao contrário de Ethan, a sua família vive infeliz com a condição social em que se encontram e até ressentidos com Ethan por ele ser descendente de uma família rica e não se esforçar para recuperar o dinheiro que tinham ou pelo menos parte dele. Ethan sente-se, por isso, pressionado e, ao mesmo tempo, é constantemente posto à prova até que acaba por pôr em causa os seus próprios valores, se realmente importam ou se está apenas a ser preguiçoso quando não segue caminhos duvidosos para seu próprio proveito, como todos à sua volta o fazem.
 
Resta saber como Ethan reagirá a todas as pressões a que é sujeito…
 
Gostei bastante desta leitura mas “As Vinhas da Ira” continuam a ser o meu livro preferido deste escritor. Em “O Inverno do Nosso Descontentamento” senti, por vezes, mudanças de ritmo abruptas devido a um excesso de reflexão em alguns capítulos e pouca acção. Mas, depois de alguma persistência, compensou. Neste romance, existem poucas personagens e todas elas acabam por tomar um papel importante na história em determinada altura. Houve uma que, na minha opinião, se destacou por ser tão diferente de todas as outras, Margie Young-Hunt, melhor amiga de Mary, que lê cartas e que se deita com alguns moradores da cidade. Os filhos de Ethan acabam, também, por ter um importante papel no desenrolar da história, representando princípios opostos, e de uma forma bastante inesperada!

Curiosidade: O título desta obra refere-se a uma frase de “Richard III” de Shakespeare:
“Now is the winter of our discontent made glorious summer by this son of York
Na obra, a certa altura, Ethan usa o trocadilho son/sun.
 

O Meu Pé de Laranja Lima

Sara, 12.08.09

“O leitor vai encontrar a história comovente do menino Zezé, de seis anos, um rapaz pobre, inteligente, sensível e carente. Com a falta de afecto que não encontra na família, o endiabrado rapaz vai pelas ruas fazendo mil travessuras.

Zezé aprende tudo sozinho, é o “descobridor das coisas”. Descobre a ternura e o carinho no amigo “Portuga”. Inventa para si um mundo de fantasias em que o grande confidente é o Xururuca, o pé de Laranja Lima. Mas a vida ensina-lhe tudo demasiado cedo, e Zezé descobre o que é a dor e a saudade – “Por que contam coisas às criancinhas?”.”
 
José Mauro de Vasconcelos conta-nos uma história muito bonita e comovente sobre um menino de cinco anos, pobre e de grande coração, Zezé, que apesar de pertencer a uma família muito numerosa se sente sempre muito sozinho. A família de Zezé passa por maiores dificuldades quando o seu pai é despedido da Fábrica. Quando chega o Natal toda a situação se torna ainda mais real quando nenhuma das crianças recebe uma prenda e Zezé interioriza que isso só pode ter acontecido por ser um mau menino ou por o Menino Jesus não gostar de pobres já que um amigo dele, de famílias ricas, recebeu imensas prendas pelo Natal.
Zezé não é uma criança qualquer, é extremamente inteligente, gosta de aprender palavras difíceis e até aprendeu a ler sozinho. Mas também tem algumas características comuns à sua idade, ele gosta de pregar partidas, é um traquina mas sem qualquer maldade no coração. No entanto, em casa não lhe perdoam estas brincadeiras e acaba por ser castigado, até mesmo várias vezes ao dia, tornando o seu corpo testemunha de toda as sovas que apanhou.
 
Zezé faz de um pé de laranja lima o seu amigo, companheiro de brincadeiras e contentor de angústias. Mais tarde, encontra em Manuel Valadares, um velho português, ternura e amor como nunca recebeu em casa. Infelizmente é também com o seu novo amigo que Zezé conhece a maior infelicidade e se apercebe que a maior dor não é aquela que dói no corpo mas sim no coração.
 
A obra é de leitura muito simples mas de tema profundo. Se a pobreza já é por si uma situação muito triste, apresentada por uma criança ainda nos toca mais o coração…
 
Nota: Esta obra tem continuação em “Vamos Aquecer o Sol”, do mesmo autor, onde Zezé já é um pré-adolescente e mora agora com a família do seu padrinho. A sua imaginação continua a criar amigos que lhe fazem companhia, desta vez um sapo e um artista serão os seus companheiros.
 
 

O Deus das Moscas

Sara, 06.08.09

“Um grupo de rapazes abandonados numa ilha deserta desfruta da liberdade total festejando a ausência de adultos. Porém, à medida que o frágil sentido de ordem dos jovens começa a colapsar, também os seus medos começam a tomar sinistras e primitivas formas. De repente, o mundo dos jogos, dos trabalhos de casa e dos livros de aventuras perde-se no tempo. Agora, os rapazes confrontam-se com uma realidade muito mais urgente – a sobrevivência – e com o aparecimento de um ser terrível que lhes assombra os sonhos.”

 
A história começa com duas das crianças, sobreviventes de uma queda de avião numa ilha isolada e deserta do Pacífico, Ralph e Piggy e a exploração que juntos fazem da ilha e do mar que a envolve. Após terem encontrado uma quantidade relativa de crianças também sobreviventes da queda do avião, percebem que é necessário que haja um chefe eleito por todos, regras a cumprir e um conjunto de coisas a fazer com diferentes prioridades. É preciso que todos lutem juntos pela sobrevivência.
No entanto, esta tentativa de organização cedo falha, uns querem apenas brincadeira enquanto os mais sensatos dedicam-se à construção de abrigos para a chuva e à existência permanente de uma fogueira que poderá servir de sinal a um barco que se aproxime da ilha e, desta forma, ao seu salvamento.
Mais tarde, surge o medo com o desaparecimento de uma das crianças e com os pesadelos que os mais novos começam a ter, onde aparece um monstro. E esse monstro confirma-se ao ser avistado por várias crianças na ilha, até pelas mais velhas. Se o caos até este momento não estava já lançado, o medo será a perdição de todos.
 
Esta obra retrata como várias características do comportamento humano podem levar à destruição, das mais evidentes nesta história temos a inveja, a ambição e também o individualismo que num cenário onde é necessário que todos pensem e tomem decisões juntos, torna-se bastante perigoso. Também testemunhamos, a partir de certa altura, o isolamento forçado de Piggy pelas outras crianças, por este ser baixo, bastante gordo, sofrer de asma, usar óculos espessos e, possivelmente, por ser o mais sensato e inteligente, o que o aproxima dos seres adultos que todos tinham, inicialmente, festejado por não se encontrarem entre eles.
Apesar de se tratar, inicialmente de uma simples aventura, a leitura torna-se, rapidamente, profunda ao assistirmos ao caos que acaba por dominar a ordem instaurada ao início e os horrores que daí advêm.
 
"O Deus das Moscas" foi o primeiro romance escrito por William Golding, Prémio Nobel, sendo considerado como uma das maiores obras do século XX.
 
 
Nota: “O Deus das Moscas” foi, ao que parece, uma resposta de William Golding ao livro “A Ilha de Coral” escrito por Ballantyne, onde três rapazes britânicos, Jack, Ralph e Peterkin encontram-se numa ilha e, ao contrário do que acontece em “O Deus das Moscas”, conseguem, de forma heróica, ultrapassar todos os problemas que vão surgindo. William Golding oferece-nos a versão alternativa, descrente da bondade entre os seres humanos.
 
 

Drácula

Sara, 05.08.09

Tive a oportunidade de ler este livro numa leitura conjunta do Fórum da Estante de Livros, como já vos tinha contado. De outra forma, não seria um dos próximos livros a ler. Não o tinha sequer nas minhas estantes e fui requisitá-lo à biblioteca. Se tiverem uma biblioteca perto de vocês, aconselho vivamente que se inscrevam lá, é uma forma de ler imensos livros sem gastar um tostão!

 
Mas voltando ao livro em questão…
 
Drácula é a quinta obra de Bram Stoker, inspirada em Vlad III, o Empalador e conhecido também por “Draculae”, “Filho do Dragão”, Príncipe da Valáquia do século XV. Em torno de Vlad foi construída uma imagem obscura, aterradora, devido ao que se ouvia dizer dele, particularmente sobre a forma como tratava os seus inimigos. Vlad III tinha o hábito de empalar os seus inimigos ou mesmo famílias inteiras, atravessando-os depois com uma estaca de madeira. Para além disto conta-se, também, que durante uma visita dos mensageiros de Mehmed II, ao recusarem tirar os turbantes, Vlad ordenou que os pregassem às cabeças.
 
Este clássico é narrado por diversas personagens, através de registos em diários, escritos ou falados, cartas e telegramas, notícias de jornais, para além das conversações. Achei este modo de escrita muito cativante pois para determinada situação conhecemos o ponto de vista de cada personagem, a sua interpretação do ocorrido. Nunca tinha lido qualquer livro estruturado desta forma e revelou-se numa descoberta muito interessante.
 
A obra em si é extremamente emocionante na primeira metade, cheia de suspense, chegou mesmo a deixar-me com medo quando a lia à noite, pois sou um pouco susceptível a este tipo de contos. A apresentação e o desenrolar estão muito bem construídos, cheios de curiosos pormenores sobre os costumes e as superstições do povo, os recantos do castelo, entre outras coisas.
Já a segunda parte perde o ritmo e a história arrasta-se, a leitura perde um pouco o entusiasmo de antes para, depois, na fase final tudo se desenrolar muito rapidamente, de forma bastante abrupta.
 
Como esta leitura foi feita em conjunto, as diversas críticas fizeram sobressaltar pormenores de que, certamente, não me aperceberia sozinha e aspectos que, na obra, ficaram por explicar mas não deixa, por isso, de ser uma excelente leitura!
 
Entretanto, curiosa, vi a adaptação deste livro ao cinema, realizada em 1992, por Francis Ford Coppola. Gostei do filme mas sou adepta de cinema mais “moderno” e sei que existem adaptações mais recentes que irei, certamente, ver nos próximos tempos!