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Às 23h

Livros na Minha Cabeceira

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Livros na Minha Cabeceira

Opinião: O Rapaz que Prendeu o Vento

Sara, 18.07.20

Autor: William Kambwamba e Bryan Mealer

Editora: Editorial Presença

Ano de Edição: 2010 (1ª) 

Título Original: The Boy Who Harnessed the Wind

Tradução: Saul Barata

Nº Pág.: 304

 

Sinopse:

"William Kamkwamba nasceu no Malawi, onde vivia na mais absoluta pobreza e, aos 13 anos, teve de abandonar a escola por falta de meios. Mas isso não refreou o seu optimismo nem a sua vontade de aprender e, graças a uma biblioteca escolar, continuou a acompanhar as matérias escolares. Um dia descobriu um livro que mudaria por completo a sua vida e que explicava o funcionamento dos moinhos de vento. Utilizando materiais improvisados, muitas vezes recolhidos em sucatas, William conseguiu montar dois moinhos de vento e, assim, fornecer energia eléctrica e água à sua pequena comunidade. O seu feito tornou-se notícia em todo o mundo e é contado neste livro cativante, que retrata os problemas que afligem o continente africano e sugere que as melhores soluções não partem necessariamente da ajuda dos países ricos."

 

 

 

Opinião:

O Rapaz que Prendeu o Vento começa por nos mostrar a importância que a magia tem na cultura do Malawi. É aos feiticeiros que, a maior parte da população, recorre quando necessita de proteger os seus campos de cultivo de algum animal. É também aos feiticeiros que recorrem quando ficam doentes, sendo esta uma das razões de tantas mortes na região, associadas à Malária e ao HIV. William, além de ser auto-didacta, tendo conseguido levar eletricidade e água potável à sua comunidade, fez também parte do Clube Juvenil de Amigos do Serviço de Saúde de Wimbe, prestando informação sobre as doenças e convencendo-as a fazer os testes necessários para o seu diagnóstico.

 

Apesar da pobreza da região, a família de William vivia relativamente bem. O tio de William tinha comprado uma empresa de importações para a agricultura e, mais tarde, dedicou-se à produção de tabaco de qualidade. Com o negócio a correr bem, convenceu o pai de William, a juntar-se a si. William já tinha duas irmãs, pelo que apesar do trabalho árduo, um lucro maior era bem vindo! Em pouco tempo, eram já cinco crianças em casa.

Foi após uma sucessão de eventos trágicos que a família de William viu-se obrigada, em pouco tempo, a diminuir as refeições até uma por dia e a deixar de ter capacidade de manter William na escola. É aqui que William descobre a biblioteca, decide continuar a acompanhar os estudos com os apontamentos dos seus colegas e, no meio dos livros, descobre a sua paixão.

 

Toda a história e reflexões sobre o que vai acontecendo é narrada por William, tendo o livro sido escrito em co-autoria com Bryan Mealer. Bryan Mealer, jornalista e escritor, não se limitou a dar uma simples ajuda. Bryan foi viver para casa de William e seus pais, durante meses. Desta forma, conheceu de perto não só a família de William e seus amigos, como também as pessoas e a cultura do Malawi. Creio que este cuidado por parte do co-autor foi importante na seleção das situações contadas de forma a transmitir as vivências de William e como as suas invenções evoluíram até ao culminar de uma participação nas conferências TED. Após William retomar os seus estudos na African Leadership Academy, em Joanesburgo, formou-se na Universidade Dartmouth em Hanover, e continua a receber convites para palestras e entrevistas de vários países. 

 

Se pensam que revelei demasiado do livro, não se preocupem. Não contei quase nada! Vão adorar o William, vão torcer por ele ao virar de cada página, vão dizer-lhe para não ligar aos nomes idiotas que lhe chamam enquanto vasculha nas sucatas ou no lixo por aquela peça que lhe falta. Vão sentir revolta, vão rir e vão chorar. Esta é um história verídica que nos inspira e comove. 

Escrever sobre um livro, que tanto gostei de ler, é sempre difícil pois tenho receio que não fique à sua altura - certamente não ficou.

 

Pontuação: 10/10

 

Nota: O livro já foi adaptado ao cinema e encontra-se disponível na Netflix.

Noite

Sara, 08.11.09

“Este testemunho, que surge depois de tantos outros e que descreve uma abominação da qual poderíamos nós pensar já nada nos é desconhecido, é, no entanto, diferente, singular, único…

A criança que aqui nos conta a história era um dos eleitos de Deus.
A partir do momento em que a sua consciência despertara, ela só vivia para Deus, alimentada pelo Talmude, ambicionando ser iniciada na Cabala, devotada ao Eterno. Será que anteriormente já alguma vez tínhamos pensado nesta consequência de um horror menos visível, menos evidente que outra abominações, mas que, no entanto, é a pior de todas, para nós que temos fé: a morte de Deus na alma daquela criança que descobre, de uma assentada, o mal absoluto?”
 
Ler esta obra foi um verdadeiro desafio pessoal. Elie Wiesel leva-nos, pessoalmente, até aos campos de concentração. Começa por ser despejado de casa com a sua família, acompanhado por todo o bairro e empilhado, tal como de sacos de batata se tratassem, nos vagões do comboio que os levam para o primeiro campo de concentração, Auschwitz - Birkenau. Pelos olhos de Elie, à chegada, visualizamos as chamas a saírem das chaminés dos crematórios, sentimos o cheiro a carne humana queimada… Pouco depois, assistimos à descarga de bebés num buraco e às chamas a consumi-los.
 
Com o testemunho de que os bebés eram lançados ao ar para mira de metralhadoras, fechei o livro e não peguei nele por uns dias. Pensei que não era capaz de continuar a leitura, não era capaz de criar uma barreira emocional a toda a crueldade que nos vai abruptamente assolando, muito menos ainda quando se tratam de bebés.
 
Ao longo da leitura, vamos reflectindo sobra a questão intemporal, colocado por Elie, quando tinha ainda 15 anos: Que Deus é este que assiste a toda esta crueldade sem nada fazer?
 
Vamos assistindo à perda de fé, de esperança, a um desespero crescente, a um “salve-se quem puder” mesmo que a pessoa ao nosso lado seja o nosso pai ou mãe. E nós próprios, no meio de tanta desgraça, vamos ganhando uma insensibilidade relativamente aos acontecimentos não tão horrorosos que vão ocorrendo mas que nos revoltaria em qualquer outro momento.
 
 

A Estalagem das Duas Bruxas

Sara, 28.08.09

“Uma corveta inglesa parte para terras de Espanha. O objectivo, em tempo de guerra peninsular, é concluir uma missão secreta nas Astúrias. A bordo vai o jovem oficial Edgar Burne que faz amizade com o marinheiro Cuba Tom. Cabe aos dois a missão de penetrar por terras de Espanha, numa região montanhosa, e contactar um líder rebelde local. Mas o acaso separa-os e Burne vai ter a uma estranha estalagem. Lá dentro encontram-se duas velhas de rostos medonhos e uma bela jovem morena. Convidam-no a pernoitar. Mas Burne não consegue pregar olho e, ainda para mais, parece-lhe ouvir a voz de Cuba Tom, além-túmulo, que lhe diz: “Abra bem os olhos!”

 
A história que Joseph Conrad nos conta foi encontrada pelo próprio, esquecida ou perdida, quem sabe, numa caixa de livros que comprou em Londres, em casa de um alfarrabista. Conrad conta que a princípio o manuscrito não lhe chamou a atenção mas depois certas expressões ao longo do texto e a idade do seu narrador quando tudo aconteceu despertaram-lhe a curiosidade.
Decidiu então editar esse manuscrito, pois segundo Conrad tinha partes muito enfadonhas e monótonas e retirar de lá a aventura que Burne, o autor do manuscrito e oficial inglês a bordo de uma corveta, viveu aquando da sua missão especial numa zona de Espanha, por volta de 1813, nos finais da Guerra Peninsular.
Mas Burne não se encontra sozinho nesta aventura, durante parte dela acompanha-o Cuba Tom, um timoneiro robusto, corajoso e inteligente. Entre os dois existe uma ligação muito próxima de grande amizade pois Burne, há uns tempos atrás, quando começou a prestar serviços na marinha foi entregue aos cuidados de Cuba Tom que se tornou num amigo dedicado.
 
Inicia-se então a aventura de Burne e Cuba Tom com o seu desembarque numa pequena baía próxima de uma aldeia, no norte de Espanha. Nesta aldeia procuram ajuda para o seu caminho até às montanhas onde se vão encontrar com Gonzalez, chefe de um bando que combatia os franceses. Da caricata e breve permanência numa estalagem nenhuma ajuda obtiveram.
Burne e Cuba Tom, separam-se pouco depois, combinando o encontro daí a quatro dias e Burne no regresso à corveta reencontra um dos homens que tinha visto na estalagem, um homenzinho de capa e chapéu amarelo. E é a partir deste encontro que a parte misteriosa da aventura começa. Com o aviso de que todos os homens que passavam por determinada estrada, perto de uma estalagem – a estalagem das duas bruxas – desapareciam, Burne receou pelo seu amigo Tom. Burne acaba mesmo por ir ao seu encalço, encontrando a estalagem das bruxas pelo caminho, acabando por entrar. Tudo aquilo com que Burne se irá deparar na estalagem, assustaria até o mais destemido homem! Que terá acontecido a Tom Cuba e será que Burne consegue escapar?
 
As emoções de Burne vão alterando-se, da coragem ao pavor. E a forma como Joseph Conrad apresenta o cenário, as duas bruxas e a jovem morena e a alteração dramática do estado de espírito da personagem, faz com que o final seja delicioso.
 

A Criança Que Não Queria Falar

Sara, 29.06.09

“Esta é a história verídica e comovente da relação entre uma professora que ensina crianças com dificuldades mentais e emocionais e a sua aluna, Sheila, de seis anos, abandonada por uma mãe adolescente e que até então apenas conheceu um mundo onde foi severamente maltratada e abusada. Relatada pela própria professora, Torey Hayden, é uma história que, para lá da inspiração que poderá oferecer a todos os educadores que se ocupem de crianças com problemas, transcende o âmbito de um mero <<caso>>, mostrando-nos que só uma fé inabalável e um amor sem condições são capazes de chegar ao coração de uma criança aparentemente inabordável. Considerada uma ameaça que nenhum pai nem nenhum professor querem por perto de outras crianças, Sheila dá entrada na sala de Torey, que costuma ficar com as crianças que desafiam qualquer classificação e por isso não se integram noutro lugar. É o princípio de uma relação tocante, que irá gerar fortes laços de afecto entre ambas, e o início de uma batalha duramente travada para esta criança tão solitária poder desabrochar para uma vida nova de descobertas e alegria.”

 
A turma que nos é apresentada é composta, inicialmente, por oito alunos: Peter de oito anos (com atraso mental e comportamento violento) Tyler de oito anos (tentou suicidar-se duas vezes), Max de seis anos (autista), Freddie de sete anos (obeso e com atraso mental), Sarah de sete anos (vítima de abuso físico e sexual), Susannah de seis anos (esquizofrénica), William de nove anos (compulsivo-obsessivo) e Guillermo de nove anos (cego com comportamento agressivo). Mais tarde, juntou-se à turma a Sheila, expulsa da antiga escola e condenada ao hospital psiquiátrico pelo tribunal por ter atado a uma árvore uma criança de três anos e ter-lhe pegado fogo. Sheila permaneceria na turma enquanto não houvesse vaga no hospital.
 
Qualquer estabilidade atingida num dia de aula era instável, isto é, bastava um incidente banal para que o caos regressasse à sala de aula. E, com a chegada de Sheila à turma, foi algo que começou a acontecer muito frequentemente.
Um dos acontecimentos que mais me chocou, na escola, foi quando, à hora do almoço, num acesso de ira, Sheila retirou vários peixes de um aquário, um a um, espetou-lhes um lápis nos olhos, esvaziando as órbitas e deitando depois os peixes ao chão que foram, posteriormente, várias vezes pisados e esmagados no caos que, entretanto, se criou entre as crianças e funcionários que assistiam ao cenário aterrador.
 
Adorei esta leitura, provocou-me várias vezes o riso e algumas vezes uma lágrima que permanecia no canto do olho. As crianças, já por si, fascinam-me sempre pela forma como se expressam, de uma forma tão simples mas que, ao mesmo tempo, contém as palavras certas, que muitas vezes me faltam. Ao longo do livro existem várias referências a “O Principezinho” de Antoine de Saint-Exupéry, a história preferida de Sheila, a qual pedia várias vezes à professora que lhe lesse em voz alta. A razão pela qual tinha esta preferência, não vou revelar!
 
É uma leitura diferente mas acho que vale bem a pena. No fundo fala de coisas pelas quais, mais tarde ou mais cedo, todos nós passamos como a importância das amizades, a confiança que depositamos nas pessoas, a ansiedade, o medo, a desilusão.
E é preciso algum sangue frio numa parte da leitura - não vou desvendar o que acontece – onde alguém sofre um crime bastante violento – lembrem-se que a história é, ainda por cima, verídica - esvai-se em sangue e é levado de emergência para o hospital, onde é sujeito a cirurgia. Para além da situação ser monstruosa, são dados alguns detalhes do sucedido.
 
Esta história verídica tem continuação na obra “A menina que nunca chorava”.