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Às 23h

Livros na Minha Cabeceira

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Livros na Minha Cabeceira

Opinião: Manual de Sobrevivência de um Escritor

Sara, 04.08.20

Autor: João Tordo

Editora: Companhia das Letras

Ano de Edição: 2020 (1ª edição)

N.º Pág.: 213

ISBN: 978-989-665-975-2

 

Sinopse:

O que é um escritor? Como vive? Como cria? Como sente? Partindo das suas memórias do ofício, João Tordo esboça neste livro uma espécie de manual para todos aqueles que se interessam pelo mundo da escrita sejam escritores a dar os primeiros passos ou leitores curiosos. Misturando humor e pragmatismo, memórias de vida e conselhos úteis, o autor abre as portas da sua actividade e da sua relação com a literatura e a vida a todos aqueles que experimentam a magia da ficção.

 

Opinião:

O Manual de Sobrevivência de um Escritor (ou o Pouco que Sei Sobre Aquilo que Faço) de João Tordo marca a minha estreia com este escritor. Esta foi a primeira obra sugerida no Projeto "À descoberta de... João Tordo" de Maria João Covas, para Julho - obrigada Maria João!!

 

João Tordo apresenta-nos um ensaio sobre a relação do escritor com o processo de escrita (enredo, título, técnica, etc.) e com outros temas relacionados com a escrita, como a inspiração, a angústia de se criar um segundo livro após publicação do primeiro, as ilusões que alguém que deseja ser publicado tem sobre a vida de um escritor e as tentativas que acabam na gaveta.

 

Se já tentaram escrever, se já publicaram ou se são amantes de livros irão, provavelmente, rever-se em algumas partilhas pessoais de João Tordo, como as idas à Feira do Livro enquanto criança e na dificuldade de encontrarmos a nossa voz quando escrevemos:

"Durante muitos anos, sentei-me à secretária do meu antigo quarto em casa dos meus pais e imitei outros escritores. (...) Imitava os outros, julgando ser eu. (...) Ao mudar, arriscamos, lançamo-nos na incerteza. Olhamos para a página em branco - depois de um longo caminho de imitação e, mais tarde, de tentativa e erro - e começamos verdadeiramente a escrever. Por fim, poderás escrever o que é teu e só teu"

 

Acabada a leitura, não é livro com destino à prateleira. É um livro para se ter sempre à mão, para ir abrindo ao acaso, para relembrar conselhos, referências (são tantas - um verdadeiro tesouro!) e sentimentos.

 

A escrita e a forma como João Tordo exprime os seus sentimentos deixaram-me rendida. Se os romances tiverem o mesmo impacto em mim, terá aqui mais uma leitora assídua!

 

Pontuação: 9/10

 

Opinião: O Rapaz que Prendeu o Vento

Sara, 18.07.20

Autor: William Kambwamba e Bryan Mealer

Editora: Editorial Presença

Ano de Edição: 2010 (1ª) 

Título Original: The Boy Who Harnessed the Wind

Tradução: Saul Barata

Nº Pág.: 304

 

Sinopse:

"William Kamkwamba nasceu no Malawi, onde vivia na mais absoluta pobreza e, aos 13 anos, teve de abandonar a escola por falta de meios. Mas isso não refreou o seu optimismo nem a sua vontade de aprender e, graças a uma biblioteca escolar, continuou a acompanhar as matérias escolares. Um dia descobriu um livro que mudaria por completo a sua vida e que explicava o funcionamento dos moinhos de vento. Utilizando materiais improvisados, muitas vezes recolhidos em sucatas, William conseguiu montar dois moinhos de vento e, assim, fornecer energia eléctrica e água à sua pequena comunidade. O seu feito tornou-se notícia em todo o mundo e é contado neste livro cativante, que retrata os problemas que afligem o continente africano e sugere que as melhores soluções não partem necessariamente da ajuda dos países ricos."

 

 

 

Opinião:

O Rapaz que Prendeu o Vento começa por nos mostrar a importância que a magia tem na cultura do Malawi. É aos feiticeiros que, a maior parte da população, recorre quando necessita de proteger os seus campos de cultivo de algum animal. É também aos feiticeiros que recorrem quando ficam doentes, sendo esta uma das razões de tantas mortes na região, associadas à Malária e ao HIV. William, além de ser auto-didacta, tendo conseguido levar eletricidade e água potável à sua comunidade, fez também parte do Clube Juvenil de Amigos do Serviço de Saúde de Wimbe, prestando informação sobre as doenças e convencendo-as a fazer os testes necessários para o seu diagnóstico.

 

Apesar da pobreza da região, a família de William vivia relativamente bem. O tio de William tinha comprado uma empresa de importações para a agricultura e, mais tarde, dedicou-se à produção de tabaco de qualidade. Com o negócio a correr bem, convenceu o pai de William, a juntar-se a si. William já tinha duas irmãs, pelo que apesar do trabalho árduo, um lucro maior era bem vindo! Em pouco tempo, eram já cinco crianças em casa.

Foi após uma sucessão de eventos trágicos que a família de William viu-se obrigada, em pouco tempo, a diminuir as refeições até uma por dia e a deixar de ter capacidade de manter William na escola. É aqui que William descobre a biblioteca, decide continuar a acompanhar os estudos com os apontamentos dos seus colegas e, no meio dos livros, descobre a sua paixão.

 

Toda a história e reflexões sobre o que vai acontecendo é narrada por William, tendo o livro sido escrito em co-autoria com Bryan Mealer. Bryan Mealer, jornalista e escritor, não se limitou a dar uma simples ajuda. Bryan foi viver para casa de William e seus pais, durante meses. Desta forma, conheceu de perto não só a família de William e seus amigos, como também as pessoas e a cultura do Malawi. Creio que este cuidado por parte do co-autor foi importante na seleção das situações contadas de forma a transmitir as vivências de William e como as suas invenções evoluíram até ao culminar de uma participação nas conferências TED. Após William retomar os seus estudos na African Leadership Academy, em Joanesburgo, formou-se na Universidade Dartmouth em Hanover, e continua a receber convites para palestras e entrevistas de vários países. 

 

Se pensam que revelei demasiado do livro, não se preocupem. Não contei quase nada! Vão adorar o William, vão torcer por ele ao virar de cada página, vão dizer-lhe para não ligar aos nomes idiotas que lhe chamam enquanto vasculha nas sucatas ou no lixo por aquela peça que lhe falta. Vão sentir revolta, vão rir e vão chorar. Esta é um história verídica que nos inspira e comove. 

Escrever sobre um livro, que tanto gostei de ler, é sempre difícil pois tenho receio que não fique à sua altura - certamente não ficou.

 

Pontuação: 10/10

 

Nota: O livro já foi adaptado ao cinema e encontra-se disponível na Netflix.