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Às 23h

Livros na Minha Cabeceira

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Opinião: Imaculada - Retrato de uma Família Portuguesa

Sara, 29.07.20

Autor: Paula Lobato de Faria

Editora: Clube do Autor

Ano de Edição: 2017 (2ª) 

ISBN: 978-989-724-349-3

Nº Pág.: 311

 

Sinopse:

"Portugal, 1956
Tempo da ditadura de Salazar, da censura e da PIDE. Numa família da alta burguesia, no interior do país, o lema "Deus, Pátria e Família" é sagrado. Mas a vida estremece quando na casa dos Correia bate à porta o amor e o desejo de liberdade.

Esta é uma história inspirada em acontecimentos reais em que a dualidade de ser e de parecer, da lealdade e da traição, do amor e da obrigação nos leva a caminhos imprevisíveis."

 

Opinião: Gostei imenso de descobrir esta escritora, Paula Lobato de Faria, com o seu primeiro romance "Imaculada" - que já tem continuação em "Tundavala" e um terceiro romance a ser escrito.

A escrita neste romance fez-me lembrar alguns dos nossos clássicos, de que tanto gosto, no entanto com uma escrita mais simples, tornando a leitura também mais fluida.  O contexto associado ao romance, a ditadura de Salazar, não foi vivida por mim mas é-me familiar, por muitas histórias contadas pelos meus pais e avós, pelo que as personagens e o enredo parecem-me muito credíveis.

O livro fala da importância que as aparências tinham na altura e do decoro que, especialmente, as raparigas tinham de manter para evitar serem faladas; da presença constante de um adulto nas saídas, fosse à modista ou à praia; das visitas do namorado, escolhido pelos pais, a casa da futura noiva, mantendo-os sempre com alguma distância; do papel da mulher, limitado à casa, com a educação dos filhos à sua responsabilidade.

 

Nesta primeiro excerto, temos a tal importância que a imagem de uma jovem solteira tinha na sociedade e a preocupação evidente da mãe, apesar de este ser um exemplo já um pouco mais liberal, pois foi permitido à filha que fosse estudar em Coimbra, longe de casa dos pais:

"E que histórias, meu Deus, que histórias corriam na cidade sobre a Luisinha. A mãe dela, tão sua amiga, viera um dia ter consigo, a chorar, queixando-se das más-línguas, alegando que a filha tinha em Coimbra um comportamento exemplar, estudando muito e apresentando excelentes notas (...)"

 

Neste excerto, a autora mostra a posição da mulher num casamento arranjado, relativamente ao homem, através de um personagem com ideias mais avançadas para a época, devido aos seus ascendentes nórdicos:

"(...) que outra descrição pode ser feita de um contrato em que a mulher fica dependente de um homem, do seu dinheiro, dos seus humores, dos apetites vorazes ditados pela testosterona. (...) Como saberei se ela se sente feliz comigo, se é de mim que depende o seu sustento? Que mulher terá a coragem de ser honesta e de nos dizer abertamente o que lhe vai no coração sem medo de represálias?"

 

Através de, essencialmente, duas gerações é-nos apresentada, ao longo do livro, uma posição mais conservadora e outra mais liberal. E como a posição conservadora e a importância da imagem, acabam por originar mentiras de forma a "proteger" a inocência das jovens. Mentiras essas que, caídas por terra, alteram por completo o destino das personagens.

 

Pontuação: 8/10