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Às 23h

Livros na Minha Cabeceira

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O Estrangeiro

Sara, 23.06.09

Este livro foi-me emprestado por uma vizinha e desta vez, ao contrário da sinopse, conheci um resumo da obra por ela própria, que a contava deliciada, logo percebi que era uma obra que eu não podia perder. Para vocês, aqui fica parte de uma opinião sobre o livro, que consta no mesmo:

 

“… o herói do livro é condenado porque não segue as regras do jogo. É um estrangeiro na própria sociedade onde vive, vagueia de forma marginal pela periferia da vida privada, solitária e sensual. (…) poderemos ficar com uma ideia mais exacta da personagem, mais ajustada, de todos os modos, às intenções do autor, se nos perguntarmos em que é que Meursault não segue as regras do jogo. A resposta é bem simples: nega-se a mentir. Mentir não é só dizer aquilo que não é. É também, e sobretudo, dizer mais do que aquilo que é e, no que diz respeito ao coração humano, dizer mais do que se sente. É por isso que fazemos todos, todos os dias, para simplificar a nossa vida. Meursault, contra as aparências, não quer simplificar a sua vida. Diz o que pensa, resiste a esconder os seus sentimentos e, ao fazê-lo, a sociedade sente-se ameaçada.”

 
Esta foi a primeira obra que li de Albert Camus e achei-a fascinante. Albert Camus tem um estilo muito próprio e toda a escrita é simples e precisa. Meursault, a personagem principal, será com toda a certeza a personagem mais sincera que alguma vez iremos conhecer, nem usa a mentira para se defender em tribunal quando é condenado, o que por vezes se torna um pouco absurdo - parece que, por um lado, não tem noção daquilo que está em jogo, que lhe importa apenas o momento presente, por outro é, ao mesmo tempo, uma personagem bastante inteligente.
 
Existe, praticamente, em cada folha do livro que viramos, algo que nos faz reflectir. Afinal, estamos tão habituados a pequenas mentiras, invenções ou omissões no dia-a-dia que Meursault parece que cai mesmo no ridículo. Virei, várias vezes, a página com esperança que ele se apercebesse que tinha mesmo de moderar a sua sinceridade. Mas afinal quem estaria a ser ridículo? Ele ou eu? Não pedimos tantas vezes a sinceridade de alguém? A sinceridade numa resposta ou numa opinião?
A obra “O Estrangeiro” mostra como a sinceridade não vinga na sociedade e que até podemos arranjar sarilhos, e bem complicados, se a usarmos na sua totalidade. Para além disso, é uma obra que se insere no movimento “a estética do absurdo” e no existencialismo, onde importa apenas viver e onde a morte é um acontecimento e consequência natural de estarmos vivos.
 
Ficam aqui dois excertos do livro que mostram os estilos enunciados, respectivamente:
 
“Foi neste momento que rebentou a discussão em casa do Raimundo. Ouviu-se primeiro uma voz estridente de mulher e depois a de Raimundo, dizendo: <<Enganaste-me, enganaste-me. Agora é que te vou ensinar…>>. Uns ruídos surdos e a mulher pôs-se a berrar, mas de uma maneira tão horrível que o átrio se encheu de gente. A mulher continuava a gritar e o Raimundo continuava a bater-lhe. Maria disse-me que era terrível e eu não respondi-lhe. Pediu-me que fosse chamar um polícia, mas eu respondi-lhe que não gostava dos polícias.”
 
“Nos primeiros dias de asilo, chorava muitas vezes. Mas era por causa do hábito. Ao fim de alguns meses, choraria se a tirassem do asilo, ainda devido ao hábito. Foi um pouco por isto que, no último ano, quase não a fui visitar. E também porque a visita me tomava o domingo – sem contar o esforço para ir até ao autocarro, comprar os bilhetes e fazer duas horas de viagem.”
 
É impossível ficar indiferente a Meursault durante toda a história, seja a favor dele, pela sua sinceridade, seja contra ele, por parecer tão frio e racional.
 
 

 

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