Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Às 23h

Livros na Minha Cabeceira

Às 23h

Livros na Minha Cabeceira

Opinião: A Arte Subtil de Saber Dizer que se F*da

Sara, 01.07.22

Autor: Mark Manson

Editora: Saída de Emergência

Ano de Edição: 2018 (1ª) 

Título Original: The Subtle Art of Not Giving a Fuck

Tradução: Fernanda Semedo

Nº Pág.: 200

ISBN: 978-989-8892-01-0

Sinopse:

Durante décadas convenceram-nos de que o pensamento positivo era a chave para uma vida rica e feliz. Mas esses dias chegaram ao fim. Que se f*da o pensamento positivo! Mark Manson acredita que a sociedade está contaminada por grandes doses de treta e de expectativas ilusórias em relação a nós próprios e ao mundo.

Recorrendo a um estilo brutalmente honesto, Manson mostra-nos que o caminho para melhorar a nossa vida requer aprender a lidar com a adversidade. Aconselha-nos a conhecer os nossos limites e a aceitá-los, pois no momento em que reconhecemos os nossos receios, falhas e incertezas, podemos começar a enfrentar as verdades dolorosas e a focar-nos no que realmente importa.

 

Opinião:

Este é, sem dúvida, um livro de autoajuda diferente. Não sei é se será, necessariamente, no melhor sentido.

O escritor questiona as abordagens típicas que se encontram noutros livros de autoajuda e até argumenta essas crenças, teorias, etc. mas tinha mesmo de se exprimir de forma vulgar? Ser direto, não ter papas na língua não implica ter capítulos ou subcapítulos intitulados de "Valores Merdosos" ou "Que se F*da - A Arte Subtil de Ignorar o que Não Interessa na Vida". Claro que o nome do livro já indicava que este poderia ser o caminho escolhido e dou esse desconto - afinal peguei no livro - mas depois encontram-se tiradas como "Percebemos que nunca vamos descobrir a cura para o cancro, nunca iremos à Lua nem apalparemos as mamas à Jennifer Aniston."

Não sei se a ideia era passar uma imagem cool e atrair um público mais jovem (no entanto, Jennifer Aniston remete-nos à serie Friends dos anos 90...). Mas é por achar que o conteúdo deste livro até seria mais útil, precisamente, na adolescência, que fico mais incomodada com as dezenas de asneiras gratuitas.

Mais útil na adolescência pois acredito que, à medida que os anos vão passando, o ser humano acaba por refletir em todos (ou quase todos) os assuntos abordados no livro, através das experiências de vida que vai tendo. 

Posto isto, o escritor vai relatando episódios do seu passado ou mesmo de figuras conhecidas para defender as suas ideias, passando por emoções e temas transversais a qualquer ser humano como a felicidade, o sofrimento, o fracasso, o sucesso e a rejeição.

Por exemplo, o autor recorda o efeito nefasto das redes sociais, onde se partilham as melhores fotos entre as cem que ficaram horríveis, refletindo uma construção irrealista do dia-a-dia tendo, como consequência, a sensação de que o visualizador está a fracassar, vivendo uma realidade sensaborona, monótona e pontuada por desgraças que só a si lhe acontecem.

 

Pessoalmente, foram apenas as últimas 20 páginas deste livro que resultaram para mim, onde há uma reflexão sobre o compromisso e a morte e como cada uma influencia a forma como vivemos a nossa vida.

(...) a rejeição de alternativas liberta-nos - a rejeição do que não está alinhado com os nossos valores mais importantes, com os padrões que escolhemos, a rejeição da procura constante da vastidão sem profundidade (...) A vastidão da experiência é provavelmente necessária e desejável quando se é jovem - afinal, é preciso sair e descobrir o que parece merecer o nosso investimento. Mas é na profundidade que está enterrado o ouro (...)

 

Pontuação: 2/10

A Redescobrir os Grupos de Leitura

Sara, 30.06.22

2022 foi o ano em que um grande sonho meu se realizou: fui mãe!

Sim, ao meu lado, tenho o meu grande amor, de 2 meses, a dormir, embalado por composições de Mozart, enquanto escrevo este post. Sou uma mãe babada mas não é (só) por isso que o estou a incluir aqui. A gravidez implicou um início de 2022 muito calminho e, por isso, mais tempo para me dedicar à leitura. Por isso, em 2022, estou a redescobrir os grupos de leitura!

 

Há uns 15 anos atrás (!) li vários livros em conjunto no antigo fórum da Estante de Livros, da Célia. Recordo sempre esses tempos com grande nostalgia!

Agora com mais tempo, decidi procurar mais grupos onde se partilhassem leituras e onde se trocassem opiniões sobre as leituras. No ano passado, já tinha começado a participar no canal Livros? Gosto! da Maria João Covas, que este ano, além das leituras conjuntas e sprints de leitura, tem também realizado projetos novos no canal e no Instagram, o Desafio da Camilla Lackberg e o seu Desafio, com um tema por mês. Para saberem mais, cliquem aqui!

No início do ano, encontrei um grupo de leitura no GoodReads, o Read-Along onde, a cada dois meses, lemos um livro em conjunto, votado por todos e dentro de determinado tema, e outro individualmente.

No mês passado, descobri o grupo de leitura da FNAC, na plataforma discord e a propósito do tema Viagens, vamos discutir um livro publicado já há algum tempo, mas algo polémico: O Lado Selvagem que, posteriormente, foi adaptado ao cinema por Sean Penn. Ainda no mês passado, recebi convite para um novo grupo de leitura também na plataforma discord, O Som das Palavras, para o qual acabei recentemente a leitura de Piranesi, de Susanna Clarke. No próximo mês, iremos ler A Casa no Mar Cerúleo, de TJ Klune. Se esta é uma leitura que te poderá interessar, junta-te a nós!

 

Nesta última semana, tenho descoberto Booktubers, contas de Instagram e podcasts sobre livros mas tudo isso fica para um outro post!

Opinião: O Menino de Cabul

Sara, 24.06.22

Autor: Khaled Hosseini

Editora: Editorial Presença

Ano de Edição: 2013 (1ª) 

Título Original: The Kite Runner

Tradução: Sofia Gomes

Nº Pág.: 333

ISBN: 978-972-23-5128-7

 

Sinopse:

No inverno de 1975, em Cabul, tudo o que Amir mais deseja no mundo é ganhar um concurso de papagaios para poder impressionar o seu pai, e Hassan, o seu amigo inseparável, está determinado a ajudá-lo. Mas, na tarde do concurso, um terrível acontecimento vai destruir os laços que unem os dois rapazes para sempre. E, mesmo quando a família de Amir é forçada a fugir do Afeganistão após a invasão soviética, Amir sabe que um dia terá de regressar à sua terra natal em busca de redenção.

 

Opinião:

Este foi outro livro lido a propósito de um desafio de leitura, desta vez proposto pelo grupo "Read-along", na plataforma Goodreads, durante o mês de Abril.

Este era um livro que eu já tinha na prateleira há imenso tempo e lembro-me que tinha lido várias críticas positivas quando todos andavam a lê-lo, mas nunca pensei que me fosse tocar tanto.

A história faz-nos viajar até ao Afeganistão, país de que eu nada conheço e, só por isso, já foi uma leitura enriquecedora. O escritor nasceu em Cabul, portanto quem melhor para contextualizar a história? Dar-nos um pouco da realidade da cidade e do país?

Descobri, por exemplo, que os cidadãos acreditaram que os taliban iriam libertá-los do domínio soviético mas, em pouco tempo, viram-se numa realidade ainda pior, assim que começaram as perseguições e chacinas, em praça pública. O escritor fez, ainda, questão de associar a violência sexual à guerra, nomeadamente com o fornecimento de crianças, a troco de dinheiro, aos taliban. Infelizmente, a existência de violência sexual a par com a guerra é algo que continua a ser bem real, pelo que às vezes me esqueci de que estava a ler um livro de ficção.

A relação de amizade entre os dois personagens principais, Amir e Hassan, tanto me enterneceu como chocou. Numa idade inocente, em que devemos brincar e aprender, foram diversas as situações onde a lealdade entre os amigos foi posta à prova e onde o sentimento de culpa ganhou uma dimensão cruel.

O escritor criou uma história muito envolvente, que me prendeu e que não quis largar até ao seu desfecho.

 

Nota: 9/10

Opinião: A Construção do Vazio

Sara, 17.06.22

Autor: Patricia Reis

Editora: Dom Quixote

Ano: 2017 (1ª ed.)

N.º Pág.: 160

ISBN: 978-972-20-6231-2

 

 

 

Sinopse:

A história de Sofia, uma menina-tesoura que sobrevive a uma relação de violência e abuso e cresce com a convicção de que a maldade supera tudo.
Será possível atenuar a dor?
Como se resiste ao fantasma real da infância?
Que decisões partem dessa memória e podem limitar a vida?
Sofia abriga-se na amizade de três homens, Eduardo, Jaime e Lourenço, e vive sem desejo, sem vontade, de construção em construção, sendo o vazio o objectivo final.

 

Opinião:

No mês de Maio, a Maria João Covas, no seu desafio de leitura, propôs a leitura de um livro escolhido por um amigo e foi assim que conheci a escrita crua de Patrícia Reis.

Este foi um livro difícil para mim. Foram várias as vezes que tive de o poisar e respirar bem fundo. Precisava de uma pausa para relembrar que era apenas uma história. O realismo na escrita de Patrícia Reis fez sentir que Sofia estava bem perto de mim. Talvez conseguisse vê-la por uma janela, testemunhar tudo, mas sem nunca conseguir alcançá-la.

O livro é relativamente pequeno mas a escrita é tão rica que cada página mexe com as emoções de quem o lê. É uma história dura, que começa quando Sofia ainda é criança. E como pode uma criança crescer feliz, sentir-se amada, se aprende desde cedo que o mundo é um local violento? Se até nós, leitores, adultos, sentimos angústia ao ler os acontecimentos que vão pautando a sua vida?

Como poderia Sofia apagar as suas memórias?

 

Pontuação: 10/10

 

Ainda da sinopse: "Sofia surge pela primeira vez no livro Por Este Mundo Acima (2011) ..." e os personagens Eduardo, Jaime e Lourenço também, pelo que espero descobrir esta leitura em breve.

Opinião: Arsène Lupin, Cavalheiro Ladrão

Sara, 02.03.22

Autor: Maurice Leblanc

Editora: Cultura

Ano: 2021 (1ª ed.)

N.º Pág.: 183

ISBN: 978-989-9039-35-3

 

 

Sinopse:

Ousado, sedutor e divertido, Arsène Lupin é o criminoso ladrão mais famoso do início do século XX. Responsável por uma série de crimes misteriosos em França, o anti-herói mantém um código de honra muito próprio: atormenta os seus oponentes, ridiculariza a burguesia e ajuda os mais fracos. Um Robin Hood muito francês, portanto. Não se leva muito a sério, a sua arma mais mortífera é a perspicácia e não é um aristocrata que se aclama como anarquista, mas sim um anarquista que vive como aristocrata.

 

Opinião:

Este livro consiste numa série de contos, onde Lupin é o protagonista. É um ladrão inteligente, com classe e honra mas também com sentido de humor.  Apesar de descobrirmos em cada conto como Lupin consegue ludibriar a sua vítima, não acho que esta seja a parte mais interessante da leitura, nem a principal razão pela qual se deve pegar neste livro. Aquilo que marca os contos, é mesmo o código de honra deste ladrão. Desta forma, está sempre presente a dicotomia ladrão/gentleman, o que torna Lupin num protagonista muito curioso e com um humor acutilante.

Um exemplo disto encontra-se no conto "Arsène Lupin na Prisão", no qual Arsène escreve uma carta, a partir da prisão, a um barão que pretende roubar. Descreve-lhe os artigos que o barão tem em casa e quais deverá enviar-lhe (com portes pagos, claro). Refere ainda que, caso não os envie, será o próprio Lupin a deslocar-se a sua casa, indicando em que noite fará o roubo e que, assim, não se contentará apenas com os objetos que referiu. No final da carta, pede desculpa pelo incómodo que poderá estar a causar e ainda em P.S. tem ainda o cuidado de informar que um dos quadros que o barão tem em sua posse é uma cópia e que também duvida da autenticidade de outro objeto.

E é este o sentido de humor que vamos descobrindo à medida que conhecemos mais um caso de Arsène Lupin.

Quanto à escrita, apesar de ser já um clássico da literatura francesa, é muito simples e fácil de ler, pelo que se terminam estas quase 200 páginas num instante!

 

Por fim, falando em adaptações...

Umas vezes são os livros que nos conduzem à adaptação cinematográfica, outras vezes o oposto. E, se antes, regra geral, encontrava nos livros uma versão que me prendia mais, através de detalhes que um filme não consegue transmitir, esta foi mais uma vez que encontrei uma série que a meu ver conseguiu ultrapassar o livro. Apesar de não se tratar de uma adaptação, a série é inspirada nos seus contos.

Na Netflix, podem encontrar a série Lupin.

 

 

Pontuação: 7/10

 

Opinião: Inês de Castro

Sara, 08.01.22

Autor: Isabel Stilwell

Editora: Planeta de Livros

Ano: 2021 (4ª ed.)

N.º Pág.: 486

ISBN: 978-989-777-509-3

 

 

 

Sinopse:

Inês de Castro tremia na sua presença. Afonso IV era o rei que levara à morte o meio-irmão, Afonso Sanches, o seu adorado tio que a havia recebido como uma filha. O homem que tirara tudo à sua família. O homem que a expulsara sem dó nem piedade da corte para a afastar do seu único filho, acusando-a de ser uma perigosa espia. O homem que humilhava o seu Pedro que, tropeçando nas palavras, não conseguia impor-se ao pai e afirmar o amor por ela. O homem que nascera sob a estrela de Algol, como a avisara repetidas vezes a sua querida Zulema. Algol, a estrela do demónio...

Quando Inês ouviu o galope dos cavalos e viu o estandarte real caiu de joelhos e implorou, olhando os sete anéis de Afonso IV que a hipnotizavam. Mas o seu destino estava traçado. Mais uma vez, Pedro lhe falhara, cobarde, frágil, não estava ali para a defender, para gritar que ela era sua mulher, casados perante Deus, mãe dos seus filhos legítimos...

 

Opinião:

Este livro foi explorado em leitura conjunta no canal youtube "Livros? Gosto" de Maria João Covas. Foi o livro escolhido em Dezembro e que transitou para os primeiros dias de Janeiro.

E comecei o ano tão bem! Nunca tinha lido nada de Isabel Stilwell e fiquei rendida. Aliás, nunca tinha lido nenhum romance histórico. Associava o género literário às aulas de História que tive na escola e que, tirando o programa de 9º ano que apanhei, mais focado em Salazar, economia e História de Arte, sempre foi um suplício. Ainda bem que aceitei o desafio! Foi uma experiência totalmente diferente.

Claro que, e novamente da escola, tinha conhecido duas versões de Inês de Castro. Por um lado, nos Lusíadas, temos a versão apaixonada de Inês, vítima da ira de Afonso IV; por outro, dos livros de História, Inês surge como uma galega nobre que, ao ter filhos de D. Pedro, poria em causa a descendência do reinado para D. Fernando I, filho de D. Pedro e D. Constança.

Então, teremos no livro de Isabel Stilwell a primeira versão apaixonada ou uma versão mais estratégica e ambiciosa de parte de Inês? Nenhuma delas. O livro vai muito além disso: Aqui é dada a Inês, uma complexidade, várias camadas a descobrir. Não temos, como numa fantasia, a personagem boazinha ou a má-da-fita.

Já D. Pedro, ao contrário do que a série "Inês e Pedro" de Moita Flores mostrou, apresenta-se como alguém frágil, subjugado pelo Pai, excluído de todos os assuntos do reino e dominado pela sua gaguez. Alguém que não consegue afirmar-se e defender aquilo que quer.

Mas, além de Inês, que conhecemos desde a infância, temos outra mulher forte neste romance histórico, D. Teresa, mãe de Afonso IV. É a personagem sensata, apaziguadora e que, se fosse dada voz às mulheres neste tempo, mostraria com certeza o caminho correto a seguir.

 

Resumindo, foi uma leitura muito interessante, contada a um bom ritmo apesar das suas quase 500 páginas, uma descoberta que me arrebatou! Em 2022, espero descobrir mais romances históricos de Isabel Stilwell. Sei que já tem vários e pretendo lê-los por ordem cronológica. Vão ser, com toda a certeza, leituras enriquecedoras!

 

Primeiro capítulo disponível aqui: Planeta de Livros

 

Pontuação: 9/10

 

 

Opinião: O Processo Violeta

Sara, 11.08.20

Autor: Inês Pedrosa

Editora: Porto Editora

Ano: 2019 (1ª ed.)

N.º Pág.: 230

ISBN: 978-972-0-03142-6

 

Sinopse:

No Portugal festivo e individualista do fim da década de 80, Violeta, uma professora de 32 anos, engravida de Ildo, um aluno de 14 anos, filho de uma mãe solteira cabo-verdiana. O Insubmisso, novo jornal de uma elite em ascensão, perseguirá a história e descobrirá que o pai de Ildo é um cavaleiro tauromáquico aristocrata.

O escândalo do chamado processo Violeta contrastará com o silêncio absoluto através do qual Ana Lúcia, amiga de Violeta, oculta a sua violação por um outro aluno de 14 anos da mesma escola.

Este romance apaixonante interroga, com inteligência, imaginação e humor, os interditos de uma sociedade que se diz livre e despida de preconceitos. O processo Violeta é, afinal, o de um país de hábitos clandestinos, esconsos, sacrificiais e crepusculares.

 

Opinião:

Eu adoro a escrita da Inês Pedrosa e talvez, por isso, tenha sido tão dificil encontrar as palavras certas para explicar a pontuação que dei a este livro. Até hoje, esta foi a opinião literária que mais me custou escrever.

A sinopse fala-nos de uma relação entre Violeta, de 32 anos e Ildo de 14 anos e a cobertura deste caso pelo jornal "Insubmisso". E, ainda, do silêncio por parte de outra professora após violação por outro aluno de 14 anos da mesma escola. Pensei então, ter nas mãos, um romance que se debruçaria, principalmente, sobre estas duas situações.


Mas encontrei algo mais parecido com um ensaio...

"Ao longo de toda a História do mundo ocidental, praticamente até à entrada do século XX, jovens e adolescentes, por vezes até meninas impúberes, foram vendidas em casamento a velhos varões que, em muitos casos, nem sequer haviam visto."

Se hoje julgamos uma relação amorosa entre uma mulher de 34 anos e um miúdo de 14 anos, noutros tempos houve várias relações, até por escolha própria, como a do escritor Edgar Allan Poe (26 anos) e Virginia (13 anos). Onde deverá então ser traçada a fronteira?

Estará o aluno a ser vítima de violação por parte de Violeta? Inês Pedrosa fala ainda dos conceitos de infância e adolescência, de como o cérebro se desenvolve e da aceleração do amadurecimento sexual, dos jovens de hoje. São diversos os momentos em que a autora nos faz refletir sobre este assunto - de que gostei bastante.

Mas, ao longo do romance foi dado grande foco ao funcionamento de um jornal, nos anos 80, pouco depois do fim da ditadura em Portugal. Esta foi a primeira coisa que me chateou. Sabia que O Processo Violeta seria coberto por um jornal e até imaginei que o narrador fosse o jornalista de investigação mas a autora debruça-se muito mais sobre este mundo jornalístico do que aquilo que eu esperava - talvez por ingenuidade da minha parte, uma vez que é neste meio que trabalha.

Mas, se soubesse que o livro trataria extensivamente este tema, não teria pegado nele, saberia logo que não me interessaria. Assim, acabei por ser "forçada" a ler temas que não me entusiasmam para descobrir como o romance entre Violeta e Ildo terminaria...

 

Outra coisa que me chateou e me chateia imenso num livro é um elevado número de personagens. Não acho que um bom romance necessite de imensos personagens, até pode dificultar a leitura, tornando-a menos fluída. Este é um livro relativamente pequeno (230 páginas) e, após alguns capítulos, tive de recomeçar a leitura, com uma folha de papel ao lado para apontar nomes, ligações entre personagens ou suas funções no jornal. Até à página 50, encontram-se cerca de 20 personagens... seriam mesmo necessárias tantas?

Por fim, temos ainda o pai de Ildo, cavaleiro tauromáquico, pelo que somos também transportados, através da relação que Ildo desenvolverá com o pai, para esse mundo que nada me fascina.

 

Pareceu-me, resumindo, uma escrita um pouco forçada, senti uma desorganização geral de ideias por parte da escritora, dá quase a sensação de que o texto não foi revisto. Já li outras obras da Inês Pedrosa, que adorei e nunca tinha ficado com esta sensação tão estranha. Talvez houvesse aqui material para dois livros independentes?

Teria preferido que houvesse um maior foco no romance entre Violeta e Ildo e mais espaço para a história de Ana Lúcia, que acabou por ser esquecida ao longo do livro. Fala-se brevemente do seu silêncio por temer represálias e até de um outro caso de violência na escola, também abafado:

"O problema das vítimas é sempre esse: o lastro da vergonha, o medo das represálias. Não reagem, o que as torna duplamente vítimas."

 

Se pudesse retirar muitos dos capítulos associados aos dramas jornalísticos e ainda sobre o contexto político, a minha pontuação seria elevada. Inês Pedrosa escreve tão bem, talvez por isso as minhas expetativas sejam tão elevadas quando pego num livro dela. Deste não posso dizer que gostei...

 

Pontuação: 4/10

Opinião: Manual de Sobrevivência de um Escritor

Sara, 04.08.20

Autor: João Tordo

Editora: Companhia das Letras

Ano de Edição: 2020 (1ª edição)

N.º Pág.: 213

ISBN: 978-989-665-975-2

 

Sinopse:

O que é um escritor? Como vive? Como cria? Como sente? Partindo das suas memórias do ofício, João Tordo esboça neste livro uma espécie de manual para todos aqueles que se interessam pelo mundo da escrita sejam escritores a dar os primeiros passos ou leitores curiosos. Misturando humor e pragmatismo, memórias de vida e conselhos úteis, o autor abre as portas da sua actividade e da sua relação com a literatura e a vida a todos aqueles que experimentam a magia da ficção.

 

Opinião:

O Manual de Sobrevivência de um Escritor (ou o Pouco que Sei Sobre Aquilo que Faço) de João Tordo marca a minha estreia com este escritor. Esta foi a primeira obra sugerida no Projeto "À descoberta de... João Tordo" de Maria João Covas, para Julho - obrigada Maria João!!

 

João Tordo apresenta-nos um ensaio sobre a relação do escritor com o processo de escrita (enredo, título, técnica, etc.) e com outros temas relacionados com a escrita, como a inspiração, a angústia de se criar um segundo livro após publicação do primeiro, as ilusões que alguém que deseja ser publicado tem sobre a vida de um escritor e as tentativas que acabam na gaveta.

 

Se já tentaram escrever, se já publicaram ou se são amantes de livros irão, provavelmente, rever-se em algumas partilhas pessoais de João Tordo, como as idas à Feira do Livro enquanto criança e na dificuldade de encontrarmos a nossa voz quando escrevemos:

"Durante muitos anos, sentei-me à secretária do meu antigo quarto em casa dos meus pais e imitei outros escritores. (...) Imitava os outros, julgando ser eu. (...) Ao mudar, arriscamos, lançamo-nos na incerteza. Olhamos para a página em branco - depois de um longo caminho de imitação e, mais tarde, de tentativa e erro - e começamos verdadeiramente a escrever. Por fim, poderás escrever o que é teu e só teu"

 

Acabada a leitura, não é livro com destino à prateleira. É um livro para se ter sempre à mão, para ir abrindo ao acaso, para relembrar conselhos, referências (são tantas - um verdadeiro tesouro!) e sentimentos.

 

A escrita e a forma como João Tordo exprime os seus sentimentos deixaram-me rendida. Se os romances tiverem o mesmo impacto em mim, terá aqui mais uma leitora assídua!

 

Pontuação: 9/10

 

Opinião: Imaculada - Retrato de uma Família Portuguesa

Sara, 29.07.20

Autor: Paula Lobato de Faria

Editora: Clube do Autor

Ano de Edição: 2017 (2ª) 

ISBN: 978-989-724-349-3

Nº Pág.: 311

 

Sinopse:

"Portugal, 1956
Tempo da ditadura de Salazar, da censura e da PIDE. Numa família da alta burguesia, no interior do país, o lema "Deus, Pátria e Família" é sagrado. Mas a vida estremece quando na casa dos Correia bate à porta o amor e o desejo de liberdade.

Esta é uma história inspirada em acontecimentos reais em que a dualidade de ser e de parecer, da lealdade e da traição, do amor e da obrigação nos leva a caminhos imprevisíveis."

 

Opinião: Gostei imenso de descobrir esta escritora, Paula Lobato de Faria, com o seu primeiro romance "Imaculada" - que já tem continuação em "Tundavala" e um terceiro romance a ser escrito.

A escrita neste romance fez-me lembrar alguns dos nossos clássicos, de que tanto gosto, no entanto com uma escrita mais simples, tornando a leitura também mais fluida.  O contexto associado ao romance, a ditadura de Salazar, não foi vivida por mim mas é-me familiar, por muitas histórias contadas pelos meus pais e avós, pelo que as personagens e o enredo parecem-me muito credíveis.

O livro fala da importância que as aparências tinham na altura e do decoro que, especialmente, as raparigas tinham de manter para evitar serem faladas; da presença constante de um adulto nas saídas, fosse à modista ou à praia; das visitas do namorado, escolhido pelos pais, a casa da futura noiva, mantendo-os sempre com alguma distância; do papel da mulher, limitado à casa, com a educação dos filhos à sua responsabilidade.

 

Nesta primeiro excerto, temos a tal importância que a imagem de uma jovem solteira tinha na sociedade e a preocupação evidente da mãe, apesar de este ser um exemplo já um pouco mais liberal, pois foi permitido à filha que fosse estudar em Coimbra, longe de casa dos pais:

"E que histórias, meu Deus, que histórias corriam na cidade sobre a Luisinha. A mãe dela, tão sua amiga, viera um dia ter consigo, a chorar, queixando-se das más-línguas, alegando que a filha tinha em Coimbra um comportamento exemplar, estudando muito e apresentando excelentes notas (...)"

 

Neste excerto, a autora mostra a posição da mulher num casamento arranjado, relativamente ao homem, através de um personagem com ideias mais avançadas para a época, devido aos seus ascendentes nórdicos:

"(...) que outra descrição pode ser feita de um contrato em que a mulher fica dependente de um homem, do seu dinheiro, dos seus humores, dos apetites vorazes ditados pela testosterona. (...) Como saberei se ela se sente feliz comigo, se é de mim que depende o seu sustento? Que mulher terá a coragem de ser honesta e de nos dizer abertamente o que lhe vai no coração sem medo de represálias?"

 

Através de, essencialmente, duas gerações é-nos apresentada, ao longo do livro, uma posição mais conservadora e outra mais liberal. E como a posição conservadora e a importância da imagem, acabam por originar mentiras de forma a "proteger" a inocência das jovens. Mentiras essas que, caídas por terra, alteram por completo o destino das personagens.

 

Pontuação: 8/10

Opinião: O Rapaz que Prendeu o Vento

Sara, 18.07.20

Autor: William Kambwamba e Bryan Mealer

Editora: Editorial Presença

Ano de Edição: 2010 (1ª) 

Título Original: The Boy Who Harnessed the Wind

Tradução: Saul Barata

Nº Pág.: 304

 

Sinopse:

"William Kamkwamba nasceu no Malawi, onde vivia na mais absoluta pobreza e, aos 13 anos, teve de abandonar a escola por falta de meios. Mas isso não refreou o seu optimismo nem a sua vontade de aprender e, graças a uma biblioteca escolar, continuou a acompanhar as matérias escolares. Um dia descobriu um livro que mudaria por completo a sua vida e que explicava o funcionamento dos moinhos de vento. Utilizando materiais improvisados, muitas vezes recolhidos em sucatas, William conseguiu montar dois moinhos de vento e, assim, fornecer energia eléctrica e água à sua pequena comunidade. O seu feito tornou-se notícia em todo o mundo e é contado neste livro cativante, que retrata os problemas que afligem o continente africano e sugere que as melhores soluções não partem necessariamente da ajuda dos países ricos."

 

 

 

Opinião:

O Rapaz que Prendeu o Vento começa por nos mostrar a importância que a magia tem na cultura do Malawi. É aos feiticeiros que, a maior parte da população, recorre quando necessita de proteger os seus campos de cultivo de algum animal. É também aos feiticeiros que recorrem quando ficam doentes, sendo esta uma das razões de tantas mortes na região, associadas à Malária e ao HIV. William, além de ser auto-didacta, tendo conseguido levar eletricidade e água potável à sua comunidade, fez também parte do Clube Juvenil de Amigos do Serviço de Saúde de Wimbe, prestando informação sobre as doenças e convencendo-as a fazer os testes necessários para o seu diagnóstico.

 

Apesar da pobreza da região, a família de William vivia relativamente bem. O tio de William tinha comprado uma empresa de importações para a agricultura e, mais tarde, dedicou-se à produção de tabaco de qualidade. Com o negócio a correr bem, convenceu o pai de William, a juntar-se a si. William já tinha duas irmãs, pelo que apesar do trabalho árduo, um lucro maior era bem vindo! Em pouco tempo, eram já cinco crianças em casa.

Foi após uma sucessão de eventos trágicos que a família de William viu-se obrigada, em pouco tempo, a diminuir as refeições até uma por dia e a deixar de ter capacidade de manter William na escola. É aqui que William descobre a biblioteca, decide continuar a acompanhar os estudos com os apontamentos dos seus colegas e, no meio dos livros, descobre a sua paixão.

 

Toda a história e reflexões sobre o que vai acontecendo é narrada por William, tendo o livro sido escrito em co-autoria com Bryan Mealer. Bryan Mealer, jornalista e escritor, não se limitou a dar uma simples ajuda. Bryan foi viver para casa de William e seus pais, durante meses. Desta forma, conheceu de perto não só a família de William e seus amigos, como também as pessoas e a cultura do Malawi. Creio que este cuidado por parte do co-autor foi importante na seleção das situações contadas de forma a transmitir as vivências de William e como as suas invenções evoluíram até ao culminar de uma participação nas conferências TED. Após William retomar os seus estudos na African Leadership Academy, em Joanesburgo, formou-se na Universidade Dartmouth em Hanover, e continua a receber convites para palestras e entrevistas de vários países. 

 

Se pensam que revelei demasiado do livro, não se preocupem. Não contei quase nada! Vão adorar o William, vão torcer por ele ao virar de cada página, vão dizer-lhe para não ligar aos nomes idiotas que lhe chamam enquanto vasculha nas sucatas ou no lixo por aquela peça que lhe falta. Vão sentir revolta, vão rir e vão chorar. Esta é um história verídica que nos inspira e comove. 

Escrever sobre um livro, que tanto gostei de ler, é sempre difícil pois tenho receio que não fique à sua altura - certamente não ficou.

 

Pontuação: 10/10

 

Nota: O livro já foi adaptado ao cinema e encontra-se disponível na Netflix.