Terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Cândido

“Contra o optimismo a todo o preço insurge Voltaire. Não elaborando um novo sistema filosófico, mas tão-somente deixando gritar a realidade dos factos, num romance curto mas causticamente satírico, em que Cândido, o herói, educado por mestre Pangloss (encarnação grotesca do optimismo), continuamente esbarra contra o muro da maldade humana e tropeça de desgraça em desgraça, no decurso de uma peregrinação pelo mundo que o faz passar por Lisboa, onde é surpreendido pelo terramoto de 1755.”.
 
 
Cândido, clássico da literatura, é um pequeno romance satírico de Voltaire em resposta a um sistema filosófico de então, defendida por Leibniz e Wolff, que procurava explicar a existência simultânea de um Deus e um mundo onde existem catástrofes, miséria, pobreza, entre outros males. Leibniz, seguido de Wolff, acreditavam que “(…) ao determinar-se a criar o universo, Deus seleccionou o melhor dos mundos possíveis. Se a ciência divina oferecia ao Criador um imenso leque de possibilidades de escolha, a sua bondade infinita levou-o a optar pelo melhor. (…) O mal, sem dúvida uma realidade, representa algo de metaforicamente inevitável, na medida em que resulta da imperfeição própria de todo o ser criado (…) Mas, sendo apenas questões de pormenor na globalidade do universo, as imperfeições nele existentes realçam a bondade, a beleza e a harmonia do todo.”
 
O romance apresenta Cândido como aluno desmedidamente crédulo de Pangloss, o mestre que o educa e acredita no optimismo de Leibniz.
Cândido vive um conjunto de caricatas peripécias, ingénuo vai teimando nos ensinamentos do seu Pangloss contra a realidade que o vai testando em vão. Mas, se no início Cândido parece agarrar-se desesperadamente a esses ensinamentos, a quantidade de dor, sofrimento, infortúnio, doença e azar que vai observando, e mesmo vivendo, acaba por abalar os seus pilares de convicção. Conta-se então a história da desilusão de um homem à medida que vai conhecendo as pessoas, o mundo.
 
O romance inicia-se na Vestefália, no castelo do Barão de Thunder-tem-tronckh, onde Cândido vive e sobre o qual os criados suspeitam que seja filho da irmã do Barão. No castelo, para além do Barão e de Cândido, vive também a Baronesa e os dois filhos, o futuro Barão e a sua irmã, Cunegundes. E é logo no início do romance que Cândido é expulso do castelo após o Barão tê-lo encontrado, atrás de um biombo, beijando a sua filha Cunegundes.
A partir deste momento, no qual Cândido é atirado para o mundo exterior, a sequência dos acontecimentos dá-se a um ritmo impraticável, onde os próprios acontecimentos são ora ridículos, grotescos, inacreditáveis ou mirabolantes, ou mesmo tudo junto. Mas é mesmo esse o objectivo de Voltaire, onde todo o humor satírico da obra permanece. Personagens mortas que regressam à vida, homens que se alimentam de nádegas de senhoras quando estão esfomeados, uma ceia em Veneza onde Cândido encontra, inacreditavelmente, seis reis destronados, tudo é provável nesta obra. Ou se ama ou se detesta, impossível é ficar indiferente!
Para mim? Brilhante e certamente irei relê-la, é uma obra onde se encontram sempre novos pormenores, onde as personagens parecem reais pelo seu sofrimento e onde todo o acontecimento, por mais pequeno que seja, tem um grande significado. Adorei a personagem Martin, um velho sábio, que Cândido conhece a meio da história, e que ao ouvir este falar sobre o seu Pangloss critica as crenças do filósofo. Tenho a certeza que Martin, perante a convicção cega e teimosia de Cândido, só lhe apetecia bater, literalmente, com a cabeça nas paredes…!
 
Voltaire (François Marie Arouet), nascido em Paris, a 12 de Novembro de 1964, foi um escritor filósofo francês, que defendeu a liberdade do indivíduo, e grande figura do Iluminismo. Escreveu inúmeras peças de teatro, poesia, romances, ensaios, trabalhos históricos e científicos. Defendeu, abertamente, a reforma social apesar das consequências que existiam na altura a quem se pronunciasse. Também, criticou o dogma da Igreja, através dos seus trabalhos, sempre polémicos.
 
Curiosidade: Nas suas viagens, Cândido passa por Lisboa, na altura do terramoto de 1755, e esse terramoto é usado como um dos argumentos contra a filosofia de Pangloss: uma catástrofe dessas é inexplicável no “melhor dos mundos possíveis”.
 
publicado por Sara às 20:21

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